terça-feira, 15 de abril de 2014

             Se escutava bem o silêncio que refletia na poeira entre os fracos raios de sol. A manhã passou rápida nesse mistério. Naquela tarde, acho que a última desses tantos dias que estive no hospital, pouco antes do horário de visitas, uma menininha graciosa de um olhar encantador, com um vestidinho bege como os iguais da enfermaria, irrompeu a porta e se aproximou lentamente. 

             Parou junto ao meu leito, frente ao meu rosto e com essas palavras disse na voz mais suave que eu já havia ouvido: "moço doce, vê esse caderninho em minhas mãos, visitei os teus sonhos todas essas noites, deles recolhi teus mais profundos sentimentos a cada sono teu, tuas aspirações e medos nele escrevi e agora te entrego. O teu canto desperta amplo na imensidão. Está livre."

             Me entregou o caderno, virou-se e saiu da mesma maneira como entrou.  Então, dele retirei esses poemas, que eram muito maiores, complexos e incompreensíveis. Pois que eu desconsiderei muitas partes e reproduzi aqui apenas aquilo que ainda não pude entender.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Quase um soneto ou soneto de um quase

Calhei de enveredar na ânsia
Isso claro desde a infância
Sombrio, estranho e desesperado
Cismado, carente e agoniado

Contrariava ser coroado
Pessonhento e agourado

Andava por aí distraído
Dissipando-me descontraído

Na névoa que tanto me encanta
De todos os encontros perdidos
Nessa angustia que me decanta

Recolho, devolvo e repito
Todos os momentos divertidos

Nesse instante cru e aflito

domingo, 13 de abril de 2014

Primeiro era o sol
Não era bom nem mal
Depois eram humanos
Os criadores da morte

Nascia hoje a cidade
Uma aglomeração aberrante
Inigualável no cruzar de ruas
De compromissos inadiáveis

Quando o dia raiou
Pela primeira vez se ouviu
Os sons dourados da luz
Incrustada nas nuvens deitadas

Tudo isso é de propósito
Grãos de areia voam ao vento
Mar batendo em pedras gritando
Raízes sugando a seiva da terra

Quando os humanos do humos
Fizeram nascer as plantas certas
Deuses da água e do fogo omissos
Perderam as cabeças e os corações

Certos mostros valorizaram o ódio
E o sangue jorrou como bebida
Muitos aprovaram seu sabor
Outros se exilaram no deserto

Quando se aquebranta o relicário
Amanhecem  nebulosas crepusculares
O ardor e o clamor daquele parto
E em outras planícies tenebrosas

Ouviu-se um grande berro rebentado
Da placenta o ventre esmagado
Da alta deusa espantou-se o feto
Do céu desabou no ato o teto

O adro abriu-se imundo e livre
Do aço arrebentado das correntes
Ao passo que outros sons desconsertados
Escaparam como gemidos estridentes

Do alto um trovão doce cortou lento
Os cânticos monótonos das montanhas
Desabando em avalanches de tormento
Devorando os seus filhos pelas entranhas

Palácios destruíram-se todos por capricho
Paraísos desterraram-se em caminhos
Cumprindo os seus destinos derradeiros
Nas partes mais obscuras dos cantos da cidade

Atiraram no lodo o amor roto
Cuspiram em cima e pisaram com fé
Uivaram para a lua dançando na mata
Observaram a desgraça sem medo no peito

Quando nasceu o que nasceu
Separou-o desse e chamou-lhe pai
Fogo baixo e branda chama
Tanto inflama até que queima

Somos selvagens achados na pedra
Somos pedreiros artífices do futuro
Éramos urbanos inocentes mamíferos
Éramos coletores perdidos na mata

sábado, 12 de abril de 2014

Na desincongruência indestrutível
Cada um dá significado a seu valor
O fruto do desejo é incoercível
Proscrito no seu corpo sem pudor

O que não era substância da matéria
Deitou veneravelmente a seu favor
Faminto e paciente sístole da artéria
Mostrou em seu ensejo o esplendor

Um ovo desnascido com o sangue era expelido
E eu bebia o ferro e o ouro em seu sabor
A não-morte-não-vida do buraco negro
Minhas papilas degustavam como um gemido

Um parto inexistente de mais um filho
Rebento no estalo da manhã emputrecido
Abstruso intervalo no alvorecer intumecido
Mais um deus de ouro venerável feito de milho

Caminhando para o oeste extremo
E a terra girando para o lado contrário
Houve apenas um único pôr-do-sol supremo
A escura infertilidade guardada num calvário

Pairam sobre a praia uma horda de mostros
Devorando o ar gelado que toca a areia
Nuvens enternecem as ondas de encontros
Do calor dos trópicos que em mim permeia

Outro dia olhei para a cidade soturna
Encontrei-me com os selvagens-de-concreto
A noite urbana caída em farfalhos do teto
Destroços que a deixavam ainda mais noturna

O desprezo apavora como a boca podre
De um leão que nos devora de repente
Com aflito e doloroso grito ardente
Bebendo a água calma de um rio ocre

Como um meteóro estrondoso que pegou de surpresa
A raça bendita que exterminaria o homem
Mais um pouco de carne podre na presa
Dessa mandíbula encarecida talvez não fizesse bem

Uma dor prazerosa me invade quando acordo
Sinto uma triste alegria e uma alegre tristeza
Sei achar felicidade sempre quando concordo
Em buscar na incerteza qualquer beleza

Um pássaro humaniza a árvore cantando
Dentro do meu olho escorre para o ouvido
Ideia completa com som e imagem vidido
Um homem passarinha o chão voando

sexta-feira, 11 de abril de 2014

A noite tece
Os incompreendidos
Pontos luminosos

Nos antecede
Seus brilhos perdidos
Gozos pecaminosos

O dia enudece
Malezas ocultas
Sombrias reentrâncias são fendas
de ouro
Porque o dia dura mais no verão

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Na noite longa o homem conta estrelas
O frio é mais forte sem ter o que comer
Vamos dançar entorno da fogueira
E entoar cantos para nos aquecer

A infâmia acordou aquela noite
Com rancor audaz em seu açoite
Percorreu becos imundos e entrou
Na casa mais bonita que encontrou

Naquele inverno o rico tinha conseguido
Almoço e janta fartos pros seus filhos
Tudo o que a infâmia tinha perseguido
A paços largos como eletricidade pelos fios

A atrocidade ganhou seus berços de ouro
Onde os intocáveis primogênitos dormiam
O primeiro foi morto como a um touro
Com flechas encantadas que lhe estraviam

O sangue bravio e indômito dos burgueses
O segundo se desterrou desfacelado
Os membros engolidos por um monstro alado
O terceiro foi docemente coberto de fezes

Foi envenenado com torpor vilaço
E sobreviveu ao duro e quente aço
Que o marcou para sempre com o brio
No âmago corrompido e um calafrio

Que fez morrer todas as flores ao redor
No discorrer medonho dos seus lábios
De uma baba viscosa e de um odor
Que fazia desmaiar todos os sábios

Todos perceberam a torpe maldade
Moldada suavemente com fidelidade
A casta mais impura das riquezas
Conhecia a mais cruel das pobrezas

Quem queria ter marcado no couro
A concreta certeza do fracasso
Ter de si tomado o seu tesouro
Ver de perto seco o teu regaço

Quanta frialdade judicante
Pode-se sentir sem dar-se conta
Eu queria ser uma bacante
E dançar beba e tonta

Na cantiga da ciranda nua
Uma dança obsconsa e bela
Ou ainda no meio da rua
Onde foi bosque e hoje há favela

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Nada de dizer que não valeu a pena
Para de pensar que nada aconteceu
Tudo é muito sério nessa vida
Para que se finja que esqueceu

O mundo que nos é dado
Já está lá

Abra sua porta para quem quiser
Usufrua como achar melhor
Aproveite sem motivos
Não há nada para comemorar

Faça bom proveito do que se dispõe
Lamente quando termina o que foi
Como todo humano sofra

Nada com que se preocupar
Pois isso de fato é o que importa
Faça sua própria ordem
Onde tudo é permitido

Contra o que guerrear
Para terminar o inevitável

terça-feira, 8 de abril de 2014

Tem muito tempo que o mundo é mundo
Que se morre mesmo
Que se é desleal

Paladinos, justiçeiros vão tomar no cu
Se morre porque está vivo
Se mata apenas por prazer

Vai procurar a justiça na puta que te pariu
Você com seus valores cristãos
Já tem muito muito tempo que o mundo é mundo

Não têm espíritos, não têm deuses
Somente a fome e o sangue
Somos famintos sem compaixão

Você tembém que falou que não
Defende bem os seus
Com quem mais você tem consideração

A carne é mole e o sangue jorra
Eu te ajudo hoje mas amanhã
Seu fígado pode ser apetitoso

Salvadores do mundo escolhidos por si mesmos
Só desejam salvar suas próprias peles
Adoradores da nobreza, odiadores de pobreza

Nesse mundo nada tem valor
Nada que não venha da natureza presta
Somos bichos sem alma

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Nada pode parar
Está tudo tão veloz
Eu envelheço
Não tenho pressa

O rio não se importa
Cachoeira cai
Lago se forma e vai
Para o mar

Lá no alto
Tudo parece calmo
Logo as nuvens vêm
E eu não posso ver nada

Mas sei que tudo continua lá
Estradas, pastos, casas
Caminhões, vacas, gente
Cada qual no seu lugar

Indo e vindo
E vai chegar o carnaval
Tudo vira festa
Hoje estarei feliz

domingo, 6 de abril de 2014

Há dinamite para explodir
O diamante que me convir
Quero expandir meu lado escroto
Não me dê champanhe eu quero esgoto

Num copo bem vistoso
Que pareça um cálice
Um líquido pavoroso
E medonho como a hélice

Que decepa a ponta do dedo
Distraído

Sirva-me a lavagem no banquete
Morda a minha pica no boquete
Eu quero é ver s
                           a
                             n
                                   g
                                          u
                                               e

Nada melhor que o sangue para
AGUÇAR       AS       RETINAS

Falácias, falácias, falácias
E virgens descabaçadas
Crimes passionais

Fazer tremer a têmpora e saltar as veias do pescoço
Criar alvoroço
Ante o destino fatal não escolher o
belo
Antes se aproximar do horrendo
Antes que se esteja morrendo
Para não fazer feio com
A morte

Morrer um dia a cada dia se renova
O sangue e a saliva que se troca em cada encontro com a sorte
                                                               De não se sentir sozinho.
Se é mais humano quando
se pratica o mal

sábado, 5 de abril de 2014

A exelência é terrível
Teima em corromper os inaptos
Esmerilha e suja a simplicidade
Adestra e aprisiona a espontaneidade

Maldita mania do sensível
Queima ao interromper os ineptos
Comunga de pé com a ignorância
Molesta e lesiona a intolerância

Ter uma ânsia tão morbida que toque
A sombra da minha juventude em choque
Contransta com a felicidade que tenho
Quando vejo um bicho morto e venho

Sorrindo debochado da animalidade crua
Que pousa na crueldade em cada esquina
Desejando amor aos moribundos na rua
E assistindo a sorte que culmina

Na colisão escusa de uma rosa
Com o espinho inocente que te fura
O dedo fino de maneira dolorosa
Inquieto chupo o sangue com ternura

E não deixo escorrer nenhuma gota
O instante destilado não resiste
E estende-se qual lábaro estrelado
Cosido no improviso a moda rota

Úlceras me nascem nas membranas
As mucosas macias se ressecam
E os sinais de infecção me entorpecem
De tantas ameaças irrompidas

As nossas frágeis e precárias cabanas
E aos belos tronos em que defecam
As realezas que afetadas se apetecem
De tantas mentiras proferidas

sexta-feira, 4 de abril de 2014


Ouve-se um estrondo
Houve um lapso
Ponto ou reticências

Provoco o fracasso
Respiro metano
Tiro do lixo
O que comer

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Permaneço inerte na nojeira
Eu precisava sair da imundicie
Mas sinto vontade de beber vômito e comer carniça
Nada melhor que o cheiro de carniça pela manhã só o cheiro de vômito no café
Acordar e dar de cara com a podridão fétida
É como pisar em bosta persa e não se sentir confortável
Eu gosto da textura da merda
Deitar-se refestelando nela

Tudo que é bonito demais
Se estraga muito rápido
Se não há defeitos aparentes
Deve estar muito maquiado

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Deletérios de feridas abertas

Ninguém quer abdicar das mordomias
Absorto em suas próprias manias
Futricando a perder de vista
Com a alma morta do artista

Esperei ouvir de novo
Era o clique do tempo
Me chamando a atenção
Que já se punha tarde

O intervalo virou um ovo
Um pássaro voou no vento
Quis arrancar seu coração
Para fazer dele uma arte

Bate-me o tempo na aorta
Curva-se o sangue na diástole
E aquele corpo morto e mole
Goza sua natureza doce morta

Torna-se um mito o momento
Que arranco-lhe as asas e os medos
E com uma pena na ponta dos dedos
Escrevo-te este claustroso lamento

Para desinstigar nossos tormentos
De muitos fatos antes descumpridos
Das promessas nunca dantes respeitadas
De outros e tantos falsos sentimentos

terça-feira, 1 de abril de 2014

O castelo desmoronou
As paredes racharam
O banquete foi servido
Era coração de ave

A mesa estava posta na rua
Os monarcas serviram o povo
Dez pratos foram preparados
A partir da rara iguaria

O veneno que me curou
Das colinas brotavam
Um dia foi proibido
Com sua fumaça suave

Alva névoa densa e crua
Flutuando pelo ar de novo
Acalma os pensamentos perturbados
Para que a mente enfim se ria

segunda-feira, 31 de março de 2014

Filho da fumaça e da pólvora
Amante da faísca e da fagulha
Acende-me um fogo que devora
Adorar a chama que me orgulha

Venero as labaredas agitadas
Que o vento alastra sem fadiga
A fúria de centelhas excitadas
Consomem numa dança antiga

A essência de flores escolhidas
E também as casas distraídas
O que não me causa consternação
Mas uma profunda satisfação

No meio da fumaça densa
Que os meus pulmões respira
Encontro a alegria distensa
Num instante incendido numa pira

Qualquer coisa que me acenda
Qualquer coisa que me aqueça
Desejo sempre sua quente fenda
A envolver-me antes que me esqueça

Porque a lembrança é como o fumo
Ainda que não se saiba seu rumo
Se esvai dissoluta e passageira
A misturar-se a transcorrência ligeira

domingo, 30 de março de 2014

Todos somos pobres coitados miseráveis
Agonizantes agoniados angustiados
e sem remorso

O coletor e caçador
Encontrou o cordeiro
Caçador de recompensas
Cansado
Inventou o gradeado
Se afeiçoou de seu novo amigo
E trouxe as boas-novas:

Não há mais fome nem sede nem frio

Cultuaram os seus filhotes
Ensinaram-lhes toda a lida
Sem esforço e sem perigo
Era bem melhor a vida

Logo desaprenderam a dividir
E duvidaram das partes que lhes
cabiam
Fígado rins e pâncreas
Intestino pra fazer linguiça

Lã lombo e coração
Chega até a dar preguiça
Tudo era aproveitado e destinado
a quem julgavam merecido justo
Uns acharam errado

Descobriram a falha
Mas foram dormir

O banho no rio foi proibido
Todos queriam comer coração
Logo cercaram o rio e
Cercaram também o coração

Criaram-se os desafios
Todos os animais foram convocados
Espalharam-se aos quatro cantos
Notícias e manchetes boca-a-boca
E a boca pequena foi crescendo
Engolindo todos os sonhadores

A procura pelo bem crescia
Enquanto a oferta diminuia
O decréscimo constante da fartura
O acréscimo flagrante da penúria
Que nos acomete a cada dia

sábado, 29 de março de 2014

Outro dia era mais tarde que
de costume
Vi o lixo espalhado de um restaurante
chique
Dei dois passos mais a frente
Me deparei com um mendigo
comendo................................

Tinha o sexo de mulher
Era um ser humano
Comia feito um bicho
Tinha aparência deplorável
Mas os seus olhos pretos
Fundos de uma imensidão longínqua
Eram doces e suaves

Em algum lugar não muito longe
dali
Surrealmente caiu um piano de
cauda
Despencado do terceiro andar
Voa pela janela panorâmica em frente
a praia..................................................

Onde fumava sozinha num canto
um cigarro
Uma mulher elegante com um sorriso sarcástico
Cuspiu e seu escarro caiu
Sobre toda a humanidade

Pairou um silêncio profundo na
rua.............................................

sexta-feira, 28 de março de 2014

Nas florestas ouviu-se gritos de pavor
Dentro da selva uma mulher nua URRAVA
Amarrada numa padra cantava com louvor
Cidade do medo da morte ela gozava

Gozava e se ria de pânico e prazer
A cidade avançava e o concreto
Surgia trazendo a treva de sua sombra
Alargando a pútrida cova do beco

A rua da vala escorria
Até à beira da prainha
Do alto do morro se via

A rua é nosso pé descalço
Se arrastando em uma linha
De sangue fresco em seu encalço

A rua é o rastro dos transeuntes
A rua é a trilha dos desbravadores
A rua é a via dos mercadores
A rua é a feira dos comerciantes

Feirantes na Rua do Mercado
Comércio na Feira dos Mascates
Finanças contas e cobranças
Compra e venda
Preço
Prazo
Quitou uma dúvida

Restou uma dívida

Tudo começou a ter seu preço
Começaram pelo gozo

Mercado a céu aberto
Tudo-se dava
Começaram a cobrar
Há profissão mais antiga
Do que ganhar pra trepar?

Canto
A bestafera
Treme
Eu gozo

quinta-feira, 27 de março de 2014

Canta canta cidade imunda
Como eu gosto de você
Ninguém é dono da rua
Ela pertence a ninguém
Ninguém faz dela o que quer
Ninguém ama a rua como
Ninguém ama
Ninguém satisfaz suas carências
Ninguém faz por ela o que
Ninguém faz
Ninguém toma conta dela
Ninguém deixa ela em paz
Ninguém cuida
Ninguém limpa
Ninguém bota pra dormir
Todas essas ruas juntas à noite
Fervilhando ocupadas por aí
Onde será que elas vão dar

O prazer de se perder nesses labirintos
O prazer de se encontrar perdido
O prazer de deixar o desconhecido
Guiar o instinto de elucidar

quarta-feira, 26 de março de 2014

Pra encontrar o caminho de volta
É preciso sair do lugar
Deslocar-se dar uma olhada em volta
Lá que é lugar pra ficar
Tornar a dar mais uma volta
Onde o caminho é circular
Lá tem uma dança revira e volta
O sol sempre retorna a brilhar
Ciranda não pára e dá mais uma volta
Cantigas novas no vento a ressoar
Como o clima é aprazível em volta
Mulheres lindas há pra eu amar
E tudo que eu quero é tua volta
Pra que eu possa me matar
De esforço e gozo e com revolta
A minha pica (com força) te encravar
Bem no meio da olhota
De sua porta de trás
Sem que antes cuspa em volta
E muito menos avisar

terça-feira, 25 de março de 2014

segunda-feira, 24 de março de 2014

O ser humano nasceu
Pra morar no ermo
Na caverna abrigou
Pra fugir-se da chuva

Seus pertences primários
Protegeu-os do frio
Convocou seus signatários
Perto da beira do rio

Caminho reconstituído
No íntimo recôndito
Elo estabelecido
No altar indômito

Abriu na margem uma praia
Desceu a correnteza num tronco
Achou uma cidade encantada

Tentou regrassar mas já sem volta
Permaneceu lá onde o sol se põe

Aceitou desfiar o encontro
De desconhecida fenda enfeitada

Ser humano desencobria o ouro
E cutucando despertou a ambição
Assim a ganância de um brilho puro
Raiou sedenta de orgulhosa alegria

Nuvens negras recobriram lentamente
O céu e a terra foram separados
As profundezas tiveram seus direitos
De subir à superfície entre a neblina

O demônio veio com o pêlo louro
Acordou a cobiça-flor que lampeja
E edifica um alto e branco muro
Com farpas desejosas de sangria

Que cortam fundo e furam gentilmente
A mão boba distraída e curiosa
Que teima em segurar arames farpados
E uní-los rente junto ante o peito

domingo, 23 de março de 2014

Lavoro
Laboratório
Labirinto
Caminhos da ciência

Biblioteca?

Jardim do saber
Paraíso labirinto
Sabor de conhecer
Saborear

sábado, 22 de março de 2014

Quem foi lá onde não se foi
Que não viu o que não se vê
Foi lá ver onde não se viu
Não viu o que não foi lá ver

Não foi o que não viu lá ser
Se foi então não viu porque
Não sabia o que reconhecer
Querendo ver o que não sabia

Viu mais do que tudo que foi
Foi tudo o que não conhecia
E o que mais não poderia ver
Foi além do que se sabia ser

E por ser tudo o que não sabia
Não sendo saberia o que não viu
Ali viu tudo que foi não sendo
Sempre sendo o que nunca foi

E quando foi o que nunca se viu
Sendo ali o que nunca se foi
Se viu aqui o que não se sabia
Descobrindo-se o que sempre foi

sexta-feira, 21 de março de 2014

O labirinto no jardim e o viajante da floresta

Quando você não pode saber
Onde começa e onde termina
A si mesmo está perdido
Diante do desconhecido

Como se pode saber
O sabor que não experimentou
Como se pode saber
Se viu o que nunca se viu

Parece bobagem
Pouca bagagem
Falta do que fazer
Talvez haja o que se fazer
O que não se faz já está feito
Mas volta-se sempre atrás
Nos caminhos percorridos

E volta-se para não ser
a mesma coisa
Reles coisa

Entre as paredes
Emprensado entre paredes
Paredes
Paredes imensas
Paredes de árvores
Árvores mortas
Mortas e sem vida
Onde não se vê circular

E você não se vê refletir
Seus passos avançam
Já não são mais os seus pés que caminham

Andam andam andam
Percorrem esquinas
Curvas que tornam a curvar
Dobrando esquinas
Dobrando curvas

No final
De um ponto a outro
O que valeu na chegada
Não se sabia na partida

E o trajeto recomposto
E depois recontado
Redesenhado

As paredes arranhadas
Os rastros
As pegadas
Os tropeços
As mãos apoiadas
Para não dar de cara

E quando chega a luz
Lembranças coletadas
Dos dias sombrios
Conduzem a outros
labirintos

quinta-feira, 20 de março de 2014

Saúde na vossa casa
caríssimas primas,

Ência
Ciência
Carência
Querência
Eloquência
Coerência
Experiência
Veemência
Aderência
Paciência
Consciência
Consistência
Consequência
Referência
Preferência
Abstinência
Adstringência
Recorrência
Repetência
Resistência
Competência
Insistência
Audiência
Demência
Ausência
Essência

Perdoem-me se esqueço alguém,
Quando terei a graça de uma nova visita?
Com amor,

Ânsia

quarta-feira, 19 de março de 2014

Tenho um quintal
Onde sento
Lá atrás
Entre o bambuzal
Cercado de muros
Vejo micos e sabiás
O quintal de fato não é
meu
Penso nesse lugar antes do
muro
Já com bambu
Esse lugar que eu chamo de meu

Vejo também outros pássaros ordinários
Fico lá por horas sentado
E deixo-me pensar o que quiser
Descanso alguns minutos
Entre o bambuzal
Minhas retinas minha cabeça
Vejo o céu alguns telhados
um coqueiro e o muro

Vejo também todo lixo
do fundo do meu quintal
Esse quintal que não é
meu
É meu antes de ter os muros
mas já com bambuzal
Um canto desaproveitado
Sobrando escondido
Entre os quintais do meu
bairro
Que também não é meu
Eu só moro nele
Eu não moro exatamente nele
Eu moro numa rua (dele)
Eu moro numa casa (dela)
Habito essa casa
Moro no meu quarto
Saio e volto
Saio e volto
Saio e volto

Vou a outros cômodos
Vou a outras casas
Vou a outras ruas
Vou a outros bairros
de outras pessoas
Da nossa cidade

terça-feira, 18 de março de 2014

Nadei até esta costa
Através do grande mar
Era um mar fundo e feroz
Nadei e depois nadei

Cheguei com a mesa posta
Era um dia para se amar
Mas era um amar algoz
Cheguei e enfim cheguei

Entrei na mata densa
Tinham pedras para quebrar
Foram mais muitas pedras
Bem-quebrei e mal-quebrei

Cavei uma cova extensa
Tinham muitos para enterrar
Foram mais tantas perdas
Te enterrei e me enterrei

Colhi depois de meses
Muitas frutas de um pomar
(As ervas cultivadas)
Nasceram do meu suor
Foram tiradas de mim

Guardei as minhas fezes
Para poder esfregar
Na sua cara o pior
Das minhas entranhas para ti

Repousei então feliz
Com a noite para cantar
Suas vísceras na boca
Para sentir o seu gosto

Respirei pelo nariz
O odor fétido no ar
(Pulmão cheio de fedor)
E com minha voz rouca
Quis mostra-te o oposto

Dormi mais uma noite
Quando vi estava em casa
Era um pesadelo vivo
Verei meu filho crescer

Senti medo da morte
Voando a uma rasa
(Rente a minha cabeça)
Com todo o motivo
Morrerei hei de morrer

Acordei com um carinho
De um raro esplendor doce
Suave em minha face
Pois assim retribuí

E pelo meu caminho
Por mais duro que fosse
Pedi que eu aceitasse
Tudo o que eu instituí

Lutei pois nasci lutar
Escrever é preciso
Como viajar também
Escrevi como escrevi (...)

Decidi enfim parar
Tanto um quanto indeciso
Nunca quero ser refém
(Do que não vai me matar)
Refleti mas refleti

Como quem está no jugo
Minha cabeça na forca
Disso que chamam destino
Quis cortar essa corda

Mas é dela que sugo
Toda essa minha força
Para esse meu desatino
Que é parar bem na borda

Andei bem afastado
Para poder me pensar
Como um eu em mim mesmo
Afastei-me e nada vi

Voltei agoniado
O que queria alcançar
Repousava no esmo
De tudo que não vivi

Hesitei continuar
Mas depois eu percebi
O que vale essa pena
No olhar de quem me sorri

Pulei para poder ficar
No abismo que recebi
Antever o problema
Não salva mas não morri

Continuei e voei
Quis saber como cair
Para poder me conhecer
Pousei depois retornei

Confesso que destoei
Mas eu não podia sair
Do sonho sem distorcer
Como foi que contornei

Essa grande enseada
Do ponto de onde nasci
Ao porto que nunca sei
Onde é meu cativeiro

Lá vou fazer morada
Aqui rejuvenesci
Na estrada onde despensei
Sempre fui futriqueiro

Corri para poder fugir
O que foi que eu encontrei
Sem mais me olhar no espelho
Um vale resguardado

E um leão feio a rugir
Próximo de onde eu entrei
Me dava um bom conselho
Que seria guardado

Até chegar este dia
Cruel e malfadado
Que é o do fim da mentira
E glória da verdade

Vou viver com ousadia
Se sou um condenado
Na mão de quem atira
Quero ver a maldade

Carreguei as lembranças
Para onde fui comigo
Eu já não estava mais só
Fui passear me encantei

E não fiz mais cobranças
Confiei como amigo
O que não era mais só
Mentiu então eu cantei

Passeei onde pensei
Onde obtive abrigo
Para minhas memórias
(Passei mais uma parte)
Que não podia faltar

Contei o que aqui contei
Nadei nu com o perigo
(Plantei bombas no jardim)
Numa dessas histórias
Que não podia acabar

segunda-feira, 17 de março de 2014

Organograma da compreensão do amor

Eros-Cupido, mais tarde chamado também Amor: “o mais belo entre admirados imortais, impele-membros, de todos os admirados e de todos os seres humanos este princípio criador doma no corpo o ímpeto impulso e a antevista vontade.” Hesíodo

AMOR PRIMORDIAL
Princípio cosmogônico
Ímpeto Impulso
Insta e Urge
Instiga e estímula
Entusiasmaticamente
Motiva a vontade
Incita o desejo
Incentiva o motivo
Inspiração
Desejo
Vontade
Querer
Motivação
Efeito do princício
Desejo sensual
Desejo de todos os sentidos
Atração
Sensacional


Sensório
Sensitivo sensível
Sensor à sensibilidade
Próprio para a transmissão de sensações
Sensorial

Traduziu tudo por amor.

Estergo-estudo:

Devoção
Adoração
Veneração
Prazer

Admiração
Maternal
Fraternal
Paternal

Vice-versa
Casal
Compreensão
Entre seres humanos

Dedicação
Bem-querer
Agradar
Atenção

Carinho
Cuidado
Respeito
Estima

Consideração
Merecido
Reconhecimento
Satisfação

Filo-dileção:

Afinidade
Interesse
Apreço
Reconhecimento

Indentificação
Atração
Agradar
Prazer

Admiração
Compreensão
Respeito
Estima

Merecida
Consideração
Satisfação
Predileção

Preferência de gosto e amizade
Afeto ou paixão estremosa

Agape-paixão:

Efeito que afeta e permite afeto
Afeição
Parcialidade
Acolhimento

Bem-querer
Amor ao sentido de paixão
Identificação
Espantosa admiração

Reconhecimento
Respeito
Compreensão
Compaixão

Amor admirável e até divino
Sentimento benévolo que a infelicidade ou o mal alheio nos inspira
Dó, lástima, piedade
Pena, cuidado, trabalho

Grande desgosto
Grande pesar
Sofrimento ou martírio
Parte das boas-novas que narra a paixão do escolhido

Paixão
Passional
Apaixonada
Impressão viva
Perturbação ou movimento desordenado do ânimo
Grande inclinação ou predileção
Afeto violento, amor ardente
O objeto desse amor

Apaixonado
Compadecido

Sentido que se sente
Sentido que se quer
Sentido que se quer dizer
Sentido signo significado
Sensação
Conhecer
Saber
Sabor
Gostar
Gosto
Cupio
Gosto
Sensação
Reconhecimento
Sentir prazer
Sentidos
Paladar
Papílas gustativas
Experiência
Prazer sensual
Satisfação
Sentimentos
Sexo

Amor
Amigo
Amicus
Amiguinho
Amante
Amistosa
Amizade
Amigável
Namoro
Em amor
Namorado
Enamorado

Amor, te quero por inteiro
Amor Dileção Estudo Paixão

domingo, 16 de março de 2014

O céu fica rosa
Por entre nuvens
Depois da chuva
Um clima ameno
Como eu sou torpe
É como os caramujos
E sua gosma nojenta

Infame caramujo invasor
O que te sustenta nessa capoeira
Encontra facilmente comida
Vai dissipando suas colônias
Seus filhos vão se espalhando
Escorrendo sua gosma inscrupulosa pelas paredes
E nos azulejos

Mais afora

sábado, 15 de março de 2014

A um menestrel afastado

Quando você vem com seu violão
A manhã se torna mais amena
Solfejando um samba-canção
Vai-se para aula triste com pena

Na sua ausência pouco se canta
No caminho onde nos rodeamos
Dos queridos amigos que amamos
Todos aqui te dizem: levanta!

Cantor! renasce, te anima e canta
Teu pai te ensinou a ser palhaço
Teu filho quer ver o teu sorriso

Sacode esse samba no coração
Mostra como tu és feito de aço
Levanta! e canta! pois é preciso

sexta-feira, 14 de março de 2014

De onde vem o amor?
Mesmo sendo qualquer coisa
Num momento se desperta
O que se sabe que não vê
Num instante se aperta
O músculo cardíaco dentro do peito
No cérebro pulsa
E as mãos transpiram
O corpo todo confunde o que sente
E a vontade de tocar
Que brota do desejo
Nasce de amor
Motor ígneo
Quer se transformar num beijo
Se o que eu sinto não me mente
A mente engana o que eu sinto
E transmite ao corpo
Numa confluência de sentidos
Sensações e sentimentos
Que não é preciso entender 
Apenas deixar fluir

quinta-feira, 13 de março de 2014

O sátiro e a ninfa do bosque

Procurando local ermo

O sátiro adentrou o bosque
Como parecesse perdido
Ali encontrou o ambiente
Para a sesta cotidiana
Entre as folhagens verdejantes
Como sempre inebriado
Descansava confortável
E observava as ninfas
Sem tampouco se importar
Mas a aproximação repentina
Fez o bicho se assustar

Penetrou no bosque absconso
Como quem persegue o mal
E esperou até estar faminto
Porque num banquete
Você aparece para comer

Quando as ninfas vêm brincar
Você não escolhe
Elas te cobrem de sangue
Te domam num beijo
E te oferecem uma bebida doce
Que no fim amarga

Sabendo que não devia
Foi brincando que se perdeu
E o bosque tornou-se
Labirinto das coisas que sentiu
E não soube sair
Das grades que separam
O que sentiu do que não viveu

quarta-feira, 12 de março de 2014

Acho que eu tinha uns 12 anos...
Dá até para imaginar
Cada uma tinha um bilho especial
É tanta estrela que dá até vertigem
E você vê aquela poeira cósmica

Fascinante

terça-feira, 11 de março de 2014

Dizem-me sábio
Guru
Conhecedor de temas variados
Desejo de aprender
Na superficialidade
Saber um pouco de tudo
Uma ânsia que não se sacia
De saber o que já se conhece
Preenchendo com sentido a
Profundidade do todo
Homem mais inteligente do
Mundo? Me lêem
Místico intelectual ecumênico
E por vezes até cósmico
Uma farsa talvez
Conhecer um pouco de tudo
Não para saber possivelmente
Mas para já ter ouvido
Como posso saber que não sei o
que eu não sei
Aprendo de tudo um pouco
Mas para o que presto
Invento fazer uma mágica
Que não é difícil de imaginar
Pois é impossível saber de tudo
Apreender e dominar o conhecimento
Obter a sabedoria
Crio me conhecer
Não sei nada que não sei saber
Nem saberia se não soubesse
Busco saber de tudo para preencher
um vazio - Leio para expandí-lo
Para que saber afinal?
O saber dá o sabor
O sabor dá o saber
Experimentar
Dado o ouvido a audição para
auscultar
Dado os olhos a visualização da
paisagem
Dado o nariz ao olfato para
inalar
Dada a língua ao paladar para
gostar ou não
Experimento
O que não gravo esqueço
Não lembro o que quero

segunda-feira, 10 de março de 2014

Enigma da Ilha Açúcar
Ao Mar de Limonada

Sinto muito
Mas não quero
Sinto tanto
Não sei o que é
Desejo
Mas não permito
Desconsidero
Mas entrego
Quero
Mas omito
Não peso
Falo demais
Por não saber o que dizer
Faço
Um causo virar uma estória
Tremo
Mas resisto
Transpiro
Mas escondo
Palpito a bomba central de sangue
Mas não pareço nada
Além do medo de ver tuas pupilas

domingo, 9 de março de 2014

(O que o meu corpo quer
Não é preencher minha alma
Mas sim uma parte do teu corpo
Com uma parte do meu)

Não há liberdade
Enquanto se está vivo
Lapso do clique infinito
Preso no reflexo
De um instante de prazer
(Apenas o desejo de prazer)

De repente repete-se quando largo de mão
Esqueço pois acredito que não foi nada daquilo que era

O que me mantém motivado
Nesse ciclo é a dúvida

Porque quem busca certeza
Deseja perder o interesse
Porque fazer nascer o encanto
Às vezes falha
Mas a inconclusão do desejo
Não é motivo para dor
Se pensas que sofro te enganas
Nem desafio saber o que sentes

Não luto para regressar
O que nunca se foi
Vai sendo o que não era para ser
E o que era antes
Já não existe mais
O que retorna é o desejo de prazer
Alinhamento
Sintonia que surpreende

Não almejo a conquista
Pois não espero o domínio
Convencer é questão de saber desistir
E nesse meu cárcere aprisiono
Essas lembranças que amarro
E jogo no fundo do poço

Por não querer me matar
Você corta apenas minhas asas

Mas essas abominações atrofiadas
Que se debatem para me erger
Crescem novamente

Estando com os pés no chão
O voo não seria tão alto
O tombo não seria tão feio
Foi só um susto
Levantei no pulo
Sem me segurar

Meu salto de cabeça foi para baixo
Não interrompo o que eu sinto para poder pensar
Um diálogo que leva para a cama não precisa fazer sentido

Saber que não há um fim
Me faria eu matar-me a mim mesmo
Mas como não tenho certeza
Não perco nada
Que não encontro de novo

Vivo essa vida assim mesmo
No caso de não se repetir
Ainda que pareça complicado
Ao primeiro olhar
De relance se vê o realce
Dessa beleza que se oculta
Em tudo que me faz sorrir

sábado, 8 de março de 2014

A ciência e a ideologia
Substituiram a mitologia
Poesia resistência
Direito de nomear

Resistência

Para além do pensamento abissal
O fim das descobertas imperiais

Todos são artistas
O desejo de destruir
Gera igual esforço de preservar

Abalar o conceito de des...com...temporão...idade
Nos livrar do perigo de uma história única
Descolonizar o saber
O subjetivo e a imaginação
Desfazer o sentido do presente
Em nome da libertação futura

A poesia resiste
Dialetal

Refazendo zonas sagradas
Que o sistema profana
O mito, o rito, o sonho, a infância
Questionando-se o que se é
Dizendo o que não é
O que não quer

sexta-feira, 7 de março de 2014

Tem celebração melhor no mundo
Do que Santo Antônio
São Pedro e São João
É junina é julhina é agostina
É Joaninha é Maria é Ritinha

Bolo de fubá quentão e pé-de-moleque
Milho verde cozido com manteiga
E não pode deixar de ter fogueira
Mesmo em tempos de preservação
Da liberação de carbono
Através da combustão
É Ritinha é Maria é Martinha

Para queimar os ramos desprezados
Restos que sobraram da colheita
Para se aquecer e louvar em festa
Fartura e abundância que se renovam
Apontando fogo em direção ao céu
Para assar batata-doce
Os santos mesmo pouco importam
É Maria é Martinha é Joaninha

Coisa que eu gosto é balão
Acho lindo o balão subindo
Mas hoje em dia é melhor não
Vai subir no pau-de-sebo
Vai pescar
Vai pular fogueira
Vai brincar com fogo
Cuidado
Para não amanhecer mijado

Quero os quitutes
Doce de leite
Doce de amendoim
Doce de abóbora
Cachaça e paçoca
Sopas caldinhos e assados
De boi de porco e de carneiro
É Joaninha é Ritinha é Maria
É conhaque é quentão é cachaça
Cachacinha quente com mel
E cama

quinta-feira, 6 de março de 2014

Uma gota de orvalho
Esculpida com ternura
Destendeu-se com bravura
Bem da ponta do caralho
(Bem do alto do carvalho)

quarta-feira, 5 de março de 2014

Leiteiro desastrado
Acometa o planeta
Descenda dos astros
Constele essas cadentes
Crepite o cosmos
Banhe galáxias
Enquanto eu meteoro
Decolo foguete

terça-feira, 4 de março de 2014

Desprezado fracasso
Falha
Inútil dúvida
Surpresa
O insoluto inesperado
Um clique
Um lapso

segunda-feira, 3 de março de 2014

Tudo é provisório
Tudo é premonição
Tudo é propósito
Tudo é imprevisível

domingo, 2 de março de 2014

Eu me seduzi no seu olhar
Deixei-me entregar
Te respirei e me senti
Mergulhar no teu sorriso

Meu coração, músculo cardíaco,
Diz pára mas eu fingo que não escuto

Foi assim
Encontrei você lá e não era nada
Meu interesse foi crescendo aos poucos pelos assuntos
Conforme fui me aproximando para escutar sua voz
E então quando vi de perto os seus olhos
Como é agradável olhar nos teus olhos
Nada mais
Nossa convivência, nossos assuntos
Uma admiração cultivada na convivência
Você era a linda garota com namorado
Eu nunca mantive esperança
Nem esbocei nenhuma tentativa
Pois na minha cabeça não tinha
Nada a ver

Mas aquele olho-no-olho
Aquelas conversas ao pé do ouvido
E se você não queria nada sério
Não devia seduzir quem gosta de você
De fato admito que gosto
Do jeito que nossos corpos se encontram
Olhar nos teus olhos e ver um sorriso

Me encantei
Mas foi depois
A maneira como tudo aconteceu
Quando você me beijou
E depois a sintonia
E no final de semana
E depois
Não se podia voltar ao que era antes
Aí então eu percebi o erro
Que eu tinha cometido
Fiquei sem nada
O que não era nada
Foi-se solidificando

sábado, 1 de março de 2014

Nada qual no seu lugar
Admirando casas do alto
O mundo parece tão calmo
Não se ouve o tráfego
Se vê tudo tão longe
E não se vê ninguém

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

As pessoas verdes chegaram
No país das pessoas azuis
E os escravizaram
No país das pessoas vermelhas

Os verdes queriam
Pintar tudo de verde
Os azuis queriam
Pintar tudo de azul
Os vermelhos queriam
Pintar tudo de vermelho

Antes os verdes não queriam
Nada pintado de azul
Mas que os azuis sempre
Pintassem tudo de verde

O verde cobriu o vermelho
O vermelho coloriu o azul
O verde escondeu o azul
O vermelho acendeu o azul

Todas essas cores misturadas
Apreciaram-se de outras cores
Aproximaram-se de outro viés
Aperfeiçoaram-se em outros tons

Tonalidades que coloriram
Essa nossa vasta terra
Terra do vermelho, do verde
Do azul e de todas as cores
Que os matizes permitirem

Depois da grande guerra
Entre as pessoas vermelhas
Verdes e azuis de muitas tintas
Todo mundo saiu manchado

Cada cor apreendeu um pouco
De outra cor e apresentou
Uma gama mais abrangente
E toda essa gente colorida

Fez um mundo novo e diferente
Com muitas cores vivas
Mas não foi gentilmente concedido
Com ardor tenaz foi conquistado

O azul ensinou de azul o verde
O vermelho pintou de vermelho o verde
O verde se coloriu
De vermelho e de azul

Se não fossem todas juntas
A compor essa aquarela
Não seria de sangue, de suor e de lágrimas
Esse solo sagrado e marcado

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Uma rua é um rio quando chove
Onde era mato
Charco, brejo, pântano

A água acumula-se rapidamente
As nuvens no céu são pesadas
E a chuva cai inconsequente
Enquanto as pessoas correm apressadas

Os ônibus simplesmente não passam

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Construções antigas
Símbolos milenares
Detalhes que pouco já não se vêem escondidos

Me levaram procurando descontente
Sentido no topo dos prédios
Pela rua semi deserta de uma tarde de domingo

Caminhei até a praça
Observando a morbidez
Concretizada na memória daqueles imponentes significados

Andei sem confiança
Evitando de longe o beco
Entender é questão de treinar os sentidos pois nada é sagrado para a modernidade

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Será que o amor
É uma flechada na testa
Que de repente
Te atinge distraído
Bem no meio dos olhos
E perfurando os ouvidos
Descendo sangue do nariz
Ou bem no meio da boca
Decepando a língua
Ou como mil lanças afiadas
Te cobrindo o corpo
Despertando o interesse dos sentidos
Mantendo o desejo fixado firmemente

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Alguém vai fazer
Alguém tem que fazer
Se você não estiver lá
Alguém fará no seu lugar

Se não for você
Alguém estará lá
Se você não estiver
Alguém vai fazer?

Você tem que estar lá
Para ocupar o seu lugar

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Eu me sinto muito feliz
Olhando esse mato que nasce
Bem ali no sulco do meio fio

Sabendo da existência
Das formigas das lagartas das baratas
Suspeitando de alguma conexão

Eu me sinto tão feliz
Mesmo nessa cidade dura e doente
Me alegro com o vento nos prédios

Olhando os pequenos insetos
E cobiçando as profundezas da terra
Vislumbro um pedaço do céu

Eu me sinto tão feliz
E é por isso que me sinto tão sozinho
Tão conectado a natureza assombrosa

Procurando desalento e compulsivo
Significados cada vez mais delirantes
Para toda alegria que eu encontro

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Algo brotou no bosque
Não foi uma bela flor
Era um pequeno cogumelo

A surpresa que trouxe
O amargo gosto à boca
Não entorpeceu os sentidos

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Pensa um átomo
Uma partícula
Boson de Higgs
Partícula de Deus

O grande badabum
O biguebem
Um sopro divino
Com hálito podre


Organiza a dinâmica
Da animação e encaixamento


Pensa um elétron
Ser movente
Saltando camadas
Se lançando por aí

Diante do nada
Pertence nenhum lugar
Que se conheça
Que desapego

Talvez só exista
Onda e corpúsculo
Que te move
Que te desloca

Algum outro tipo de magnetismo

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Anoiteceu
O sol permaneceu lá
Bem paradinho
Se corroendo dentro de si

A terra se inclinando
Bem devagarzinho
Permitiu fazer-se noite aquele dia
Tudo já estava planejado

Escureceu

As estrelas ordenaram brilhos cintilantes
E a lua se queixou indignada:
eu não sou abajur para ficar aqui parada

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Auto-retrato 1

Agir exigir esforço existencial depressão abismo
Surpresa fraqueza realeza luz escuridão
Invasão da maré tempo espaço raiva música
Noite de repente sociedade civilização cidade
O encontro com os olhos no bolo noite idiota
Cercado pelos mendigos atração pararaio
de maluco paraíso jardim estado e água
Seduzir conter não conter suspiro sopro encanto
Induzir reduzir valorizar o corpo e os sentidos
Átomos poder de criação caos terra tártaro eros
A indiferença da natureza o quantum eixo
Baixa tuas armas lembrança infância curva
Reencarnar brotação desenvolvimento espírito
Crescimento expansão tudo está aqui dentro
Céu universo átomo cérebro chave corpo sensações
Seduzir amputar a punhaladas uma parte
Pressa paciência aflição idiota id idioma
Colapso fim do mundo como conhecemos
Revelação danação sinos trombetas falta
d'água e alimentos resquícios ressureição
Formigueiro suicídio redenção proliferação
Ameba café cana rosa cravo lírio fumo alfazema
Milho margarida segredo compromisso lealdade
Exterminar amor futuro passado criado
Desejo prazer imaginação à loucura ou
à morte sentidos sensações sentimentos

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Carrego comigo a certeza de que tudo existe
Em apenas um instante que não se repete mais
Nada resiste

Os sentidos dão ao corpo prazer e dor
Não sei o que me leva
Eu sinto muito prazer
Como se fosse uma surpresa

Teve uma época que me obriguei
A ter prazer apenas com a natureza
Aprender com ela
Deixar os meus sentidos
Perceberem todo o prazer
Que a natureza pode me oferecer

Os meus sentidos foram
Aprofundando como raízes
Até a lava no centro da terra
As folhas celestes confundem as estrelas

Peguei essas raízes moí
Fiz um elixir e bebi

Peguei essas folhas queimei
Fiz um incenso e inalei

O aroma levou minha memória
Ao espaço e foi lá que entendi
Que o bom é o meio
Nem o fim nem o começo
Nem o fundo nem o topo
Mas quero de tudo um pouco

Nesse planeta os meus sentidos
Estão apurados para a beleza
E complexidade da natureza
Que nem ouso entender
Apenas sentir

Quando toco teu corpo
Prazer é o que sinto
Quando sinto teu cheiro

Estes instantes se tornam eternos na minha memória

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A eternidade apenas dura o intervalo
O instante que a memória perdura
Perpetuamente retoma o sentido
Quando a imaginação se aprofunda

Algo indescritível não tem explicação
Pertence ao sentir
Nesse momento confesso
Mas tento

Quando meus olhos te sentem
O mundo se faz no seu contorno
Tua pele teve o toque mais terno
Teu cheiro é bom simplesmente
Teu cheiro mesmo
Dos teus cabelos
Sentir teu cheiro e me enfiar nele
Me enfiar nos teus cabelos
Sentir tua respiração
Sentir a textura e temperatura
Da tua boca o calor
E teu gosto
Da tua pele
O prazer do teu toque
Dos teus cheiros
Dos teus sons
Tudo me dá um prazer imenso
Sou feito de prazer
Desejo sensual

domingo, 16 de fevereiro de 2014

É por isso que eu me lanço
É por isso que eu me encanto
É por isso que eu me elevo
É por isso que eu me confundo

Esse mundo de prazer funde meus sentidos

Meus olhos
Meus ouvidos
Meu nariz
Minha boca
Meu corpo

Sensações se destilam e me conectam
Sentimentos inundam e convergem

É algo que sempre procuro
É algo que me permito

sábado, 15 de fevereiro de 2014

De fato acredito não ser possível saber tudo
Conhecer tudo que existe nem é possível
A verdade é inconcebível
Só se pode ver sobre o véu
O mais a gente inventa

Do que se vê nada é real
Rei
Realeza
Realidade
Preterindo todas as verdades plebeias no meio das multidões

Imaginem
Tudo é ilusão
Absoluta busca eterna sem propósito
É impossível conhecer todo saber

A verdade absoluta
Somos incapazes de alcançar vivos
Sem nos afastarmos do saber do conhecimento
E nos aproximarmos do saber dos sentimentos

A verdade que se pode ver engana
A verdade que se pode criar ecoa
Não é preciso saber tudo
Mas é imprescindível aprender a sentir

Pois a verdade que não se pode ver com estes olhos
Não se permite apreender completamente
A complexidade que nos é impossível saber

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Salto mortal
No abismo sem medo
Do fundo do poço da depressão

A todo instante
A cada instante
O novo instante
Esse tal instante

Novo de novo repetindo de novo
Nada é igual
Mas ao mesmo tempo é de novo

Para amar a vida
Dá amor à morte
Desejo de morrer
É prazer de viver

Foi no fundo do poço da depressão
Que eu me reinventei
Com restos de mim mesmo

Me recompus e subi
Redescobri o prazer
Nas coisas animadas
Mais mais mínimas

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Minúcias de um simples princípio
Que em sua pequenês está em tudo
Todos são capazes de sentir
Poucos dão de vida importância
Aprendi a realçar
O que de relance se alcança
Para dar relevância

O que me move é um brilho no olhar
É um brilho no brilho
Onde tudo parece fosco
Onde tudo parece escuro
Onde tudo parece feio
Onde nada é desimportante
Onde nada é indispensável
Onde tudo é sério

Este instante na memória
Guardado eternamente na imaginação

Uma pedra que canta
Um pássaro que me alinha
Um instrumento que me afina
Uma formiga que me provoca

Algo que eu como com sua trajetória
Pessoas envolvidas que o fizeram chegar
Até mim

Tudo me encanta
Um vento uma onda
Um farfalhar
Um lusco-fusco
Um vaga-lume crepitante
No fogo dos meus olhos no breu da noite
As luzes das velas tremulando
Uma pedra sob um lagarto
O que tem entre as estrelas
Tudo que dura um instante
Qualquer beleza
Qualquer flor morta
Alguma fumaça
Umas sombras

Tudo é chamado
Tudo é aviso
Tudo é movimento
Tudo é desapego
Nada é definitivo

Tudo pode conter o que me convir
Mas é sim impossível deter o devir

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Aqui se vive para morrer
Se vive sempre morrendo
Morre sempre para se viver

Só se vive pois se vai morrer
Se morre sempre para viver
Sabendo que sempre morre

Vive

Um viva para a morte
Que nos ensina a viver

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Me faz feliz sofrer
Se eu não sofresse
Não seria tão feliz
Só penso em morrer

Me mato de pensar
Me alegra me matar
Sempre desejo a morte
Tudo que quero é morrer

Sinto que quero morrer
Eu preciso me matar
Quero tanto a morte
Quero matar alguém

Se este mundo tem salvação
Seria o primeiro a me matar
Para que houvesse solução

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Quero ver a desgraça alheia na câmara de gás
Quero rir disso
Quero ser aquela família sufocada com gás 
Quero incendiar a casa de uma família negra 
Quero ser o pai daquela família incinerada 
Quero empurrar aquele tolo amante da janela do décimo terceiro andar 
Quero ser empurrado com ele 
Quero ser ele caindo
Quero espancar um mendigo 
Quero ser esse mendigo que espanquei 
Quero acertar uma bala perdida na cabeça de um inocente distraído 
Quero ser esse projétil 
Quero ser esse inocente 
Que senta na cadeira elétrica 
Que liga a alavanca 
Que dispara o gatilho 
Que libera o gás 
Que acende o fogo 
Que pressiona a seringa 
No meu leito de morte 
Desliga os aparelhos 

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Nesse mar que eu me lanço
E me deixo afundar
Quero ser profundo
Esse oceano de muitos mares
Me afogam
Não quero a superfície
Quero descer cada vez mais
Até respirar água

sábado, 8 de fevereiro de 2014

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Faz silêncio na minha cabeça
Paz eu não tenho paciência
Gosto quando as coisas acontecem
Eu quero ver o beijo mais doloroso
Me beija assim

Faz silêncio na minha cabeça
Apaga as mais bobas lembranças
Para que eu possa ter nova paz
Acho que é a maré mas é lodo
Preciso de lágrimas

Faz silêncio na minha cabeça
Pois insistir em deixar querendo
O corpo parece um trapo surrado
Me banhei no açude mas era pântano
Ledo engano

Faz silêncio na minha cabeça
Senão cometo infantis bobagens
A memória é trapaceira nos gestos
E nos olhares que como eu sou tolo
Me esforço para receber

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Queria estacionar uma bicicleta
Numa vaga de carro
Sou avisado com carinho
Como não coubesse
Insisto e brigo

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O abismo é mesmo sedutor ao poeta
Hoje e sempre é uma babaquice ser poeta
Uns debates ridículos sobre técnica e arte
E uma palhaçada ser chamado de artista

"Artista é o caralho"
Já dizia o poeta
"Desde os primórdios até hoje em dia
o homem ainda faz o que o macaco fazia"
"Desde os tempos mais primórdios
o caralho tá aí"
O fazer poético é mesmo do caralho

Eu sei que sou ingênuo mesmo
Eu sou um animal sentimental
Me entrego extremamente aos meus sentidos

Poeta
Não seja estúpido
Observe em sua mão
O coração não pára de bater
Mesmo depois de arrancado
Depois do choque
Mergulha em água salgada que passa
Põe ele no lugar e aguenta
O choro alimenta a tristeza
Deboche dele e ironize-o
Como ferro em brasa com prazer
Sorria para tristeza com educação
Essa dor para os diabos é refresco

Lá no fundo quando desço é lava pura
Vejo que tudo permanece sempre igual
O que é incerto me amedronta e fascina
A decepção ainda me pega de surpresa

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Dia claro
Escuto o dia
Aguço meus sentidos

Escuto os pássaros
Percebo o som do dia
Acolho minha imensidão

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Preparo o barco
Preparo o arpão
Preparo a corda
Preparo a rede
Pescando em alto mar
O tempo não ajuda
Minha fome aguda

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Me seduz uma agonia dolorosa
Das lembranças que mais quero esquecimento
Me marcou profundamente o pensamento
Os espinhos escabrosos desta rosa

No princípio os seus olhares me chamavam
E os seus gestos impulsivos me encantavam
Mas decerto o que talvez antes tivesse
Alcançava bem mais alto que sonhasse

Me afastar no silêncio pretendendo
Encontrar paz muito além do meu lamento
E apagar em mim esse mal que está doendo

Me livrar desses agouros repulsivos
Que tanto me deram descontentamento
E acalmar estes enganos compulsivos

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Eu não devia te dizer
Essas tolices que revelam minhas fraquezas
Você me tem nas mãos mas...
Desolação pede a sola do sapato

Para que dizer se mantém descrédito
O que esconde que não sabe se quer
E se não quer não revela o que pode

Discreto sigo
Com medo das sombras
Apreensivo em retornar ao bosque
Em plena luz do dia
Cair na minha própria cova

Encarar a solidão
Me é conhecido e reconhecido
Não sou como a mosca
Que ronda o desprezo

Omito
Teço tempo & espaço
Crio laços
Me envolvo e me enrolo

Digo porque sou tolo
Como eu sou bobo
Decepção é meu compromisso
Deito-me nessa vala

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Felizmente esse é meu castigo
Sou humilhado como a um mendigo
No gozo alcançado e concedido
O efeito cobiçado foi perdido

Encontro o que eu não queria
Então aceito o que me propõem
Queria o que eu não encontro
Porque quero o que não tenho

Penso como foi bom cada momento
Como se nunca tivesse acontecido
Antes algo melhor ou semelhante

Que me fizesse sentir como excremento
Dando-me o que nunca havia prometido
Na noite em que eu fui teu maior amante

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Caro melhor amigo Gonçalo
Eu devia ter ouvido o teu conselho
Sem receio quis te dar o meu carinho
De repente você quis rancar meus dedos

Com audácia e me assaltando de surpresa
Confiante e discorrente desse risco
Acariciei gentilmente o teu focinho
Desapegado do perigo iminente

O susto que levei foi evidente
Senti da tua boca o gosto ardente
Da minha boca um gemido estridente
Verteu-se aflitamente residente
Do fundo dos pulmões foi execrado

Senti os meus dedos sendo decepados
Respirei e esperei vê-los dilacerados
Mas quando olhei e os vi intactos
Bem feito você tinha me mordido

Belo ensinamento eu não aprendi
Não se meter com teus caninos afiados
Ainda sinto a dor do ferimento
Desse inocente gesto desatento

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Eu sempre terei apenas
Aquilo que não foi
Os beijos e abraços que não dei
As músicas e poemas que não fiz
A vez que não te comi de quatro
O filho que nunca tive
E cartas que não mandei
Sinto que amanhã posso morrer
E penso em te ligar
Os telefonemas que não falei

É tudo uma lembrança já perpétua
É tudo uma memória já recolhida
Que eu não tive
E o pensamento imagina concretamente

E apalpa
E acolhe
E não resiste as ilusões
Desvairadas de devaneios recorrentes
Até que lhes consuma o esquecimento

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O lugar da amizade

Quando estamos num lugar
Cercado por distintas pessoas
Pode o interesse agregar mais
Do que o afeto


À primeira instância
Tudo pode parecer igual
Um lugar para reunir desconhecidos
Com interesses em comum

Onde a amizade acontece
Para que os desencontros
Tenham algum sentido
Fora o destino que já conhecemos

Quem esteve lá não desperdiça um momento de sinceridade
Houve um tempo que acreditávamos na inocência da proximidade
Como quando crianças se encontram no olhar pela primeira vez
E começam a brincar juntas numa praça ao lado de casa

domingo, 26 de janeiro de 2014

Tenho algo aqui dentro
Chamado imaginação
Que em vezes me afundo
E em outras me elevo

Faço um buraco e entro
Que me coube bem feito
Mesmo como soubesse
Que não conseguia sair

Deslizo aqui para dentro
Com meu êxito satisfeito
E o êxtase momentâneo
Se disforma em tormento

Quando estava lá fora
Só pensava aqui dentro
Quando fui me dei conta
Que eu não podia voltar

Fui descendo para o fundo
Onde achei um céu profano
Fingi respirar ar puro
Na verdade era propano

Fui subindo para o topo
Onde encontrei lava viva
Nos porões do desgosto
Onde a calma reaviva

Fogo brando morro acima
Calor subindo tão súbito
Água tépida morro abaixo
Me revela as queimaduras

Prefiro ser velha árvore
Mas crio enormes raízes
Que descem profundas
E alimentam minha seiva

Nutrindo folhas celestes
Que vibrantes no vento
Se confundem aos astros
Que na abóbada crepitam

Me cortam e os pedaços
Viram mobilha para você
Sentar na minha carcaça
Enquanto calada me lê

Agora eu sou um pássaro
Mas que nasceu sem asas
E é empurrado do ninho
Enquanto ainda era ovo

Depois me banho num lago
E tomo um caixote na onda
Me afogo e aprendo a nadar
Tudo que sou capaz invento

Depois posso sempre inovar
Criar minhas novas estórias
Novos mundos para me perder
Fazer labirinto em meu jardim

Percorro essa minha cidade
De canto a canto fora a fora
Vou e volto vou e volto vou
E desembarco em minha ilha

Essa ilha é o meu paraíso
Onde sinto-me mais seguro
E viverei aqui a eternidade
Enterrado onde era mar

Agora eu enfim sou já mar
Nado assim como eu voasse
Me sinto no meu céu infinito
Que talvez nem bem tivesse

O medo difuso de sombras
Achando uma estrela nova
Até que evanesce o encanto
E eu me acordo dos delírios

Nesse esboço de memória
Em que encerro o que sinto
Aqui dentro feito um morto
Eu me enterro junto a isso

Me vejo aqui do avesso
E esse mal que eu me fiz
Aprisiono encriptado
E perpetuo tudo que vivi

sábado, 25 de janeiro de 2014

As tuas arquiteturações
Fazem linhas que trançam
Pontos vértices consignes
Em meu curvo pensamento

Esses riscos que ocorrem
Em nós os tolos poetas
Quando chegamos na sacada
Dos prédios mais altos
E olhamos para baixo

As vertigens se convertem
Em miragens que convergem
Em desejo concedido de voar
Recuo para o impulso e pulo

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O ônibus não é uma zorra total
É patético
Quem dera que fosse assim
Parece óbvio

Transformar em lúdico
O opressivo transtorno cotidiano
Esse mecanismo ineficiente de locomoção

Desrealiza essa realidade
Bruscamente atemorizante
Que não leva a lugar nenhum
Que não me oferece crescimento
Não quero ficar preso em trânsito

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Escrever me dá certa paz entretanto
Queria escrever coisas bonitas sem sofrimento
De tristeza leve quase futura

Mas quando ando nessa cidade
Encontro mostros pavorosos pela rua

Queria que todas as pessoas fossem boas
Mas realmente poucas valem uns minutos de conversa
E das que valem poucas realmente mecerem ser amadas

Quase tudo está errado com esses prédios tortos empinados
E só querem aumentá-los
Separando-nos em blocos
Com grades para nos afastar

Ver beleza no paraíso de uma praia
Certamente é uma desejosa lástima
Ver da praça uma flor inesperada nascer no beco
Certamente é uma honra

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Eu estou tão feliz de você
Ter me dado tanta tristeza
E me mostrar que eu ainda sinto ciúmes

Eu estou tão feliz de você
Ter me dado esse sofrimento
E me mostrar que sou mesmo muito fraco

Para me afastar daquilo que eu vivo fugindo

Quando eu acordo
Agora eu me sinto sorrindo
Sob o calor do dia
Me sinto sorrindo
Sob o frescor da noite
Me sinto sorrindo

E eu sinto eterno alívio

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Não posso ficar sozinho com meus pensamentos
Não tenho para onde ir
Eu sou minha única companhia

Penso em sair
Penso um lugar
Onde eu levite
Onde eu seja o que eu houver
Como uma dádiva do presente
Me inspire

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Das maiores crueldade que me disseram
A pior de todas foi não fantasie

Tentando esquecer
Mais eu tento
Mais eu penso

Arrisco a cabeça na hélice
Mesmo sabendo
Que não sou tão rápido
Para escapar

sábado, 18 de janeiro de 2014

Ah miséria!
Sou debochado
Riso sarcástico
Olhar atravessado
Não te desprezo
Pois seria ato falho

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Criaturas das trevas
Vieram me visitar
Onde era antes um lugar tranquilo
Em que eu trazia as minhas vítimas

Bem por ali
Nefastos andavam espreitando
Corroendo os meus nervos já clementes
De algum ácido
Que envenene os meus sentidos

A fumaça nos meus olhos se dissipa
E enxergo ali o que eu não desejava

Acabei topando uma cilada
Sou pego desatento num só golpe

Bobinhos mostros bisonhos inocentes
Não sabem que eu sou filho do diabo
Tão ingênuos
Me provocando os mais temíveis pensamentos

Na escuridão faziam festa
Para que das profundezas renascesse
Numa erupção que devastasse
O coração sensível e retraído
De um anjo maldito e traiçoeiro
Que me engana
Quando finge estar dormindo

Num bote escapo da armadilha
Que eles até então me preparavam
Sereno e como a água cristalina
Suspiro

...

E me entrego de mão beijada
Cambaleando
Eu recuo para distante
E nesse ritual demoníaco
Desperto desse pesadelo severo
Que não dispenso
Sem fazer um sacrifício

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Eu tenho a vida tão boa
Acordo vivo
Tenho tudo que tenho
Já tive medo do escuro
Me levanto com um sorriso

Respiro e isso é uma glória
Vitória
Cada momento do meu dia é uma vitória
Cada alimento que eu me sirvo
Cada vento que me sopra
Cada onda que rebate no rochedo
Cada formiga com sua migalha
Cada brilho que reflete
Cada som que eu escuto
Cada encanto que eu canto

Os sentidos nos enganam
É muito forte sim o que sinto
Mas o sol sempre queima os olhos
Se insistir encarar diretamente

Então me deito numa sombra fresca

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A morte é uma dádiva
O gozo é uma morte
Morrer é a revelação
Agonia é dor de morrer

Desagonia é própria vida
Convalescer e levantar
Sair do buraco fundo
Que se cai a cada dia

Dor que antecede a morte
A agonia nasce confiante
De um leve repouso em fim
Desagonia é inventar vida

É dor antagônica
Oh
Ai
Desagonia é viver

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A lua vai pousar plena
No próximo dia da lua
Marte vai estar ao lado
Para observar a eclipse

A terra lentamente a interpor
Os fulgurosos raios helíacos
E a lua tonta obscurescendo
Vai se mostrar enrubescida

Noite de benção celeste
Sincronia do plano elevado
Totalmente a lua cheia
Será recoberta na sombra

Talvez não se possa ver
Encoberta por entre nuvens
Mas ainda estão lá no alto
Completando seus percursos

Vênus pela manhã
É a última a dormir
Me coloca na cama
E me faz adormecer

domingo, 12 de janeiro de 2014

Quero o fim do mundo
Como o percebemos
Quero a destruição total
Um grande impacto
Que remova tudo do lugar
E na colisão dos encontros
Nem os escombros abriguem
O que restou em ruínas

Quero o fim do mundo
Como o conhecemos
Quero a extinsão total
Uma chuva tórrida
Que deixe nada no lugar
E na imensidão dos dejetos
Nem os rejeitos acolham
O que sobrou do lixo

Quero o fim do mundo
Como o vivemos
Quero a demolição total
Um incêndio estúpido
Que desabe todo o lugar
E na vastidão dos destroços
Nem os entulhos sustenham
O que acabou em colapso

sábado, 11 de janeiro de 2014

A janela
Como um lago
Me reflete

Ao oposto
Eu me enxergo
Transluzente

No alcance
Dos meus olhos
Me arremete

Da vidraça
Sou eu mesmo
Quem me vê

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O arrependimento
Me levou pelo braço
Vagaroso e quieto
Ao meu lado 
Andamos por aí
Por essa cidade

Encontramos de tudo
Caminhos longos
Distantes e sinuosos
Às gentes desinteressadas
Nada passa despercebido
Observamos o cruzamento
O vai e vem dos comprimissos
E das procuras insistentes
Nunca correspondidas

Andando por aí
Por essa cidade
De 6 milhões de pessoas
Descobri lugares
Que não conhecia
Entrando em becos e vielas

Atravessamos as mais desertas praças
No dorso da noite dos condenados
A vaidade me viu na festa dos excluídos
E ela me pediu carinhosa
Que eu me sentasse a seu lado

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A cidade degradante e encantadora
Essa maldita cidade nojenta

Cidade infestada de lixo
Transbordando seus valões fétidos

Repletos de podridão e excremento
Amontoados adensados

Os prédios que poluem a paisagem
Impedem também a luz do sol

Sombras se reclinam sobre a terra
Apagando sorrisos corajosos

Nos cantos deprimidos que ecoam
Nos morros majestosos

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Sempre gostei de criar estóreas
Fingir personagens
Engendrar enredos
 ...
Eu sou a noite
Eu sou o mar
Eu sou o vento
Eu sou o rochedo
Eu sou o barco
Eu sou o leme
Eu sou o peixe
Eu sou o céu
Eu sou a brisa
...
Eu sou a ficção


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Eu gosto do mal que me fazem
Debocho meu sofrimento

Num dia eu pareço mal
No outro eu to endiabrado

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Prazer que tenho
Lingote de ouro
Banhado de sangue
Água amarga
Bebida divina
Receita ancestral
Elixír prestigiado

Trazido na marra
Cacaueiro de ilhéus
Dos olmecas roubado
Pelos espanhóis recebo
Espalhado pelo mundo
Aos suíços entregue
Vendido em tabletes

Prazer que tenho
Acalma os nervos
Reaviva os ânimos
Combate o cansaço
Como enteogênico
Natural afrodisíaco
Evoca os deuses

domingo, 5 de janeiro de 2014

Às nove musas

Zeus trepou 9 noites seguidas com a Memória
As músicas ecoam no Museu templo dedicado
Dessas transas consecutivas nasceram lindas
Musas das pirações aspirações e inspirações
Calíope a mais bela voz da distinta eloquência
Clio a proclamadora das glórias humanas
Érato amável elegia adorável lírica amorosa
Euterpe plena alegria delícia doadora de prazeres
Melpômene coro trágico no evento infausto
Polímnia de muitos hinos cerimoniais sagrados
Terpsícore espontânea dançarina rodopiante
Talia comédia festiva de fazer brotar flores
Urânia astronômica imensidão celestial

sábado, 4 de janeiro de 2014

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A maioria de nós seres humanos
Não produz nada que consome

O que então seria de nós
Se todos precisassem produzir
O que consome

Cada alimento e utensílio
Cada ferramenta
que faz a peça
que faz a máquina
que faz a máquina
que faz a peça
que faz a ferramenta
para plantar
colher
acender
se comunicar

Produzir tudo que consome
Toda energia
Todo alimento

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Estive perdido algum tempo
Numa ilha que conhecia bem
Um clima tempestuoso
Muito nublado e confuso
De trevosos dias mal iluminados
Um vento impetuoso
Bravava sem clemência

Mas quando quis
Abri o sol
Tasquei mais fogo lá dentro
Assoprei as nuvens
Entoei cantos de aves
E deixei tudo arrumado
A cama bem feita
Um safal aceso
E óleo de alfazema

Um suave brisa
Me trouxe aqui
Deitei na relva
Na sombra de uma árvore
E endormeci