quinta-feira, 10 de abril de 2014

Na noite longa o homem conta estrelas
O frio é mais forte sem ter o que comer
Vamos dançar entorno da fogueira
E entoar cantos para nos aquecer

A infâmia acordou aquela noite
Com rancor audaz em seu açoite
Percorreu becos imundos e entrou
Na casa mais bonita que encontrou

Naquele inverno o rico tinha conseguido
Almoço e janta fartos pros seus filhos
Tudo o que a infâmia tinha perseguido
A paços largos como eletricidade pelos fios

A atrocidade ganhou seus berços de ouro
Onde os intocáveis primogênitos dormiam
O primeiro foi morto como a um touro
Com flechas encantadas que lhe estraviam

O sangue bravio e indômito dos burgueses
O segundo se desterrou desfacelado
Os membros engolidos por um monstro alado
O terceiro foi docemente coberto de fezes

Foi envenenado com torpor vilaço
E sobreviveu ao duro e quente aço
Que o marcou para sempre com o brio
No âmago corrompido e um calafrio

Que fez morrer todas as flores ao redor
No discorrer medonho dos seus lábios
De uma baba viscosa e de um odor
Que fazia desmaiar todos os sábios

Todos perceberam a torpe maldade
Moldada suavemente com fidelidade
A casta mais impura das riquezas
Conhecia a mais cruel das pobrezas

Quem queria ter marcado no couro
A concreta certeza do fracasso
Ter de si tomado o seu tesouro
Ver de perto seco o teu regaço

Quanta frialdade judicante
Pode-se sentir sem dar-se conta
Eu queria ser uma bacante
E dançar beba e tonta

Na cantiga da ciranda nua
Uma dança obsconsa e bela
Ou ainda no meio da rua
Onde foi bosque e hoje há favela

Nenhum comentário:

Postar um comentário