domingo, 13 de abril de 2014

Primeiro era o sol
Não era bom nem mal
Depois eram humanos
Os criadores da morte

Nascia hoje a cidade
Uma aglomeração aberrante
Inigualável no cruzar de ruas
De compromissos inadiáveis

Quando o dia raiou
Pela primeira vez se ouviu
Os sons dourados da luz
Incrustada nas nuvens deitadas

Tudo isso é de propósito
Grãos de areia voam ao vento
Mar batendo em pedras gritando
Raízes sugando a seiva da terra

Quando os humanos do humos
Fizeram nascer as plantas certas
Deuses da água e do fogo omissos
Perderam as cabeças e os corações

Certos mostros valorizaram o ódio
E o sangue jorrou como bebida
Muitos aprovaram seu sabor
Outros se exilaram no deserto

Quando se aquebranta o relicário
Amanhecem  nebulosas crepusculares
O ardor e o clamor daquele parto
E em outras planícies tenebrosas

Ouviu-se um grande berro rebentado
Da placenta o ventre esmagado
Da alta deusa espantou-se o feto
Do céu desabou no ato o teto

O adro abriu-se imundo e livre
Do aço arrebentado das correntes
Ao passo que outros sons desconsertados
Escaparam como gemidos estridentes

Do alto um trovão doce cortou lento
Os cânticos monótonos das montanhas
Desabando em avalanches de tormento
Devorando os seus filhos pelas entranhas

Palácios destruíram-se todos por capricho
Paraísos desterraram-se em caminhos
Cumprindo os seus destinos derradeiros
Nas partes mais obscuras dos cantos da cidade

Atiraram no lodo o amor roto
Cuspiram em cima e pisaram com fé
Uivaram para a lua dançando na mata
Observaram a desgraça sem medo no peito

Quando nasceu o que nasceu
Separou-o desse e chamou-lhe pai
Fogo baixo e branda chama
Tanto inflama até que queima

Somos selvagens achados na pedra
Somos pedreiros artífices do futuro
Éramos urbanos inocentes mamíferos
Éramos coletores perdidos na mata

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