domingo, 26 de janeiro de 2014

Tenho algo aqui dentro
Chamado imaginação
Que em vezes me afundo
E em outras me elevo

Faço um buraco e entro
Que me coube bem feito
Mesmo como soubesse
Que não conseguia sair

Deslizo aqui para dentro
Com meu êxito satisfeito
E o êxtase momentâneo
Se disforma em tormento

Quando estava lá fora
Só pensava aqui dentro
Quando fui me dei conta
Que eu não podia voltar

Fui descendo para o fundo
Onde achei um céu profano
Fingi respirar ar puro
Na verdade era propano

Fui subindo para o topo
Onde encontrei lava viva
Nos porões do desgosto
Onde a calma reaviva

Fogo brando morro acima
Calor subindo tão súbito
Água tépida morro abaixo
Me revela as queimaduras

Prefiro ser velha árvore
Mas crio enormes raízes
Que descem profundas
E alimentam minha seiva

Nutrindo folhas celestes
Que vibrantes no vento
Se confundem aos astros
Que na abóbada crepitam

Me cortam e os pedaços
Viram mobilha para você
Sentar na minha carcaça
Enquanto calada me lê

Agora eu sou um pássaro
Mas que nasceu sem asas
E é empurrado do ninho
Enquanto ainda era ovo

Depois me banho num lago
E tomo um caixote na onda
Me afogo e aprendo a nadar
Tudo que sou capaz invento

Depois posso sempre inovar
Criar minhas novas estórias
Novos mundos para me perder
Fazer labirinto em meu jardim

Percorro essa minha cidade
De canto a canto fora a fora
Vou e volto vou e volto vou
E desembarco em minha ilha

Essa ilha é o meu paraíso
Onde sinto-me mais seguro
E viverei aqui a eternidade
Enterrado onde era mar

Agora eu enfim sou já mar
Nado assim como eu voasse
Me sinto no meu céu infinito
Que talvez nem bem tivesse

O medo difuso de sombras
Achando uma estrela nova
Até que evanesce o encanto
E eu me acordo dos delírios

Nesse esboço de memória
Em que encerro o que sinto
Aqui dentro feito um morto
Eu me enterro junto a isso

Me vejo aqui do avesso
E esse mal que eu me fiz
Aprisiono encriptado
E perpetuo tudo que vivi

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