Tenho algo aqui dentro
Chamado imaginação
Que em vezes me afundo
E em outras me elevo
Faço um buraco e entro
Que me coube bem feito
Mesmo como soubesse
Que não conseguia sair
Deslizo aqui para dentro
Com meu êxito satisfeito
E o êxtase momentâneo
Se disforma em tormento
Quando estava lá fora
Só pensava aqui dentro
Quando fui me dei conta
Que eu não podia voltar
Fui descendo para o fundo
Onde achei um céu profano
Fingi respirar ar puro
Na verdade era propano
Fui subindo para o topo
Onde encontrei lava viva
Nos porões do desgosto
Onde a calma reaviva
Fogo brando morro acima
Calor subindo tão súbito
Água tépida morro abaixo
Me revela as queimaduras
Prefiro ser velha árvore
Mas crio enormes raízes
Que descem profundas
E alimentam minha seiva
Nutrindo folhas celestes
Que vibrantes no vento
Se confundem aos astros
Que na abóbada crepitam
Me cortam e os pedaços
Viram mobilha para você
Sentar na minha carcaça
Enquanto calada me lê
Agora eu sou um pássaro
Mas que nasceu sem asas
E é empurrado do ninho
Enquanto ainda era ovo
Depois me banho num lago
E tomo um caixote na onda
Me afogo e aprendo a nadar
Tudo que sou capaz invento
Depois posso sempre inovar
Criar minhas novas estórias
Novos mundos para me perder
Fazer labirinto em meu jardim
Percorro essa minha cidade
De canto a canto fora a fora
Vou e volto vou e volto vou
E desembarco em minha ilha
Essa ilha é o meu paraíso
Onde sinto-me mais seguro
E viverei aqui a eternidade
Enterrado onde era mar
Agora eu enfim sou já mar
Nado assim como eu voasse
Me sinto no meu céu infinito
Que talvez nem bem tivesse
O medo difuso de sombras
Achando uma estrela nova
Até que evanesce o encanto
E eu me acordo dos delírios
Nesse esboço de memória
Em que encerro o que sinto
Aqui dentro feito um morto
Eu me enterro junto a isso
Me vejo aqui do avesso
E esse mal que eu me fiz
Aprisiono encriptado
E perpetuo tudo que vivi
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