Todos somos pobres coitados miseráveis
Agonizantes agoniados angustiados
e sem remorso
O coletor e caçador
Encontrou o cordeiro
Caçador de recompensas
Cansado
Inventou o gradeado
Se afeiçoou de seu novo amigo
E trouxe as boas-novas:
Não há mais fome nem sede nem frio
Cultuaram os seus filhotes
Ensinaram-lhes toda a lida
Sem esforço e sem perigo
Era bem melhor a vida
Logo desaprenderam a dividir
E duvidaram das partes que lhes
cabiam
Fígado rins e pâncreas
Intestino pra fazer linguiça
Lã lombo e coração
Chega até a dar preguiça
Tudo era aproveitado e destinado
a quem julgavam merecido justo
Uns acharam errado
Descobriram a falha
Mas foram dormir
O banho no rio foi proibido
Todos queriam comer coração
Logo cercaram o rio e
Cercaram também o coração
Criaram-se os desafios
Todos os animais foram convocados
Espalharam-se aos quatro cantos
Notícias e manchetes boca-a-boca
E a boca pequena foi crescendo
Engolindo todos os sonhadores
A procura pelo bem crescia
Enquanto a oferta diminuia
O decréscimo constante da fartura
O acréscimo flagrante da penúria
Que nos acomete a cada dia
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