domingo, 30 de março de 2014

Todos somos pobres coitados miseráveis
Agonizantes agoniados angustiados
e sem remorso

O coletor e caçador
Encontrou o cordeiro
Caçador de recompensas
Cansado
Inventou o gradeado
Se afeiçoou de seu novo amigo
E trouxe as boas-novas:

Não há mais fome nem sede nem frio

Cultuaram os seus filhotes
Ensinaram-lhes toda a lida
Sem esforço e sem perigo
Era bem melhor a vida

Logo desaprenderam a dividir
E duvidaram das partes que lhes
cabiam
Fígado rins e pâncreas
Intestino pra fazer linguiça

Lã lombo e coração
Chega até a dar preguiça
Tudo era aproveitado e destinado
a quem julgavam merecido justo
Uns acharam errado

Descobriram a falha
Mas foram dormir

O banho no rio foi proibido
Todos queriam comer coração
Logo cercaram o rio e
Cercaram também o coração

Criaram-se os desafios
Todos os animais foram convocados
Espalharam-se aos quatro cantos
Notícias e manchetes boca-a-boca
E a boca pequena foi crescendo
Engolindo todos os sonhadores

A procura pelo bem crescia
Enquanto a oferta diminuia
O decréscimo constante da fartura
O acréscimo flagrante da penúria
Que nos acomete a cada dia

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