sábado, 12 de abril de 2014

Na desincongruência indestrutível
Cada um dá significado a seu valor
O fruto do desejo é incoercível
Proscrito no seu corpo sem pudor

O que não era substância da matéria
Deitou veneravelmente a seu favor
Faminto e paciente sístole da artéria
Mostrou em seu ensejo o esplendor

Um ovo desnascido com o sangue era expelido
E eu bebia o ferro e o ouro em seu sabor
A não-morte-não-vida do buraco negro
Minhas papilas degustavam como um gemido

Um parto inexistente de mais um filho
Rebento no estalo da manhã emputrecido
Abstruso intervalo no alvorecer intumecido
Mais um deus de ouro venerável feito de milho

Caminhando para o oeste extremo
E a terra girando para o lado contrário
Houve apenas um único pôr-do-sol supremo
A escura infertilidade guardada num calvário

Pairam sobre a praia uma horda de mostros
Devorando o ar gelado que toca a areia
Nuvens enternecem as ondas de encontros
Do calor dos trópicos que em mim permeia

Outro dia olhei para a cidade soturna
Encontrei-me com os selvagens-de-concreto
A noite urbana caída em farfalhos do teto
Destroços que a deixavam ainda mais noturna

O desprezo apavora como a boca podre
De um leão que nos devora de repente
Com aflito e doloroso grito ardente
Bebendo a água calma de um rio ocre

Como um meteóro estrondoso que pegou de surpresa
A raça bendita que exterminaria o homem
Mais um pouco de carne podre na presa
Dessa mandíbula encarecida talvez não fizesse bem

Uma dor prazerosa me invade quando acordo
Sinto uma triste alegria e uma alegre tristeza
Sei achar felicidade sempre quando concordo
Em buscar na incerteza qualquer beleza

Um pássaro humaniza a árvore cantando
Dentro do meu olho escorre para o ouvido
Ideia completa com som e imagem vidido
Um homem passarinha o chão voando

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