terça-feira, 15 de abril de 2014

             Se escutava bem o silêncio que refletia na poeira entre os fracos raios de sol. A manhã passou rápida nesse mistério. Naquela tarde, acho que a última desses tantos dias que estive no hospital, pouco antes do horário de visitas, uma menininha graciosa de um olhar encantador, com um vestidinho bege como os iguais da enfermaria, irrompeu a porta e se aproximou lentamente. 

             Parou junto ao meu leito, frente ao meu rosto e com essas palavras disse na voz mais suave que eu já havia ouvido: "moço doce, vê esse caderninho em minhas mãos, visitei os teus sonhos todas essas noites, deles recolhi teus mais profundos sentimentos a cada sono teu, tuas aspirações e medos nele escrevi e agora te entrego. O teu canto desperta amplo na imensidão. Está livre."

             Me entregou o caderno, virou-se e saiu da mesma maneira como entrou.  Então, dele retirei esses poemas, que eram muito maiores, complexos e incompreensíveis. Pois que eu desconsiderei muitas partes e reproduzi aqui apenas aquilo que ainda não pude entender.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Quase um soneto ou soneto de um quase

Calhei de enveredar na ânsia
Isso claro desde a infância
Sombrio, estranho e desesperado
Cismado, carente e agoniado

Contrariava ser coroado
Pessonhento e agourado

Andava por aí distraído
Dissipando-me descontraído

Na névoa que tanto me encanta
De todos os encontros perdidos
Nessa angustia que me decanta

Recolho, devolvo e repito
Todos os momentos divertidos

Nesse instante cru e aflito

domingo, 13 de abril de 2014

Primeiro era o sol
Não era bom nem mal
Depois eram humanos
Os criadores da morte

Nascia hoje a cidade
Uma aglomeração aberrante
Inigualável no cruzar de ruas
De compromissos inadiáveis

Quando o dia raiou
Pela primeira vez se ouviu
Os sons dourados da luz
Incrustada nas nuvens deitadas

Tudo isso é de propósito
Grãos de areia voam ao vento
Mar batendo em pedras gritando
Raízes sugando a seiva da terra

Quando os humanos do humos
Fizeram nascer as plantas certas
Deuses da água e do fogo omissos
Perderam as cabeças e os corações

Certos mostros valorizaram o ódio
E o sangue jorrou como bebida
Muitos aprovaram seu sabor
Outros se exilaram no deserto

Quando se aquebranta o relicário
Amanhecem  nebulosas crepusculares
O ardor e o clamor daquele parto
E em outras planícies tenebrosas

Ouviu-se um grande berro rebentado
Da placenta o ventre esmagado
Da alta deusa espantou-se o feto
Do céu desabou no ato o teto

O adro abriu-se imundo e livre
Do aço arrebentado das correntes
Ao passo que outros sons desconsertados
Escaparam como gemidos estridentes

Do alto um trovão doce cortou lento
Os cânticos monótonos das montanhas
Desabando em avalanches de tormento
Devorando os seus filhos pelas entranhas

Palácios destruíram-se todos por capricho
Paraísos desterraram-se em caminhos
Cumprindo os seus destinos derradeiros
Nas partes mais obscuras dos cantos da cidade

Atiraram no lodo o amor roto
Cuspiram em cima e pisaram com fé
Uivaram para a lua dançando na mata
Observaram a desgraça sem medo no peito

Quando nasceu o que nasceu
Separou-o desse e chamou-lhe pai
Fogo baixo e branda chama
Tanto inflama até que queima

Somos selvagens achados na pedra
Somos pedreiros artífices do futuro
Éramos urbanos inocentes mamíferos
Éramos coletores perdidos na mata

sábado, 12 de abril de 2014

Na desincongruência indestrutível
Cada um dá significado a seu valor
O fruto do desejo é incoercível
Proscrito no seu corpo sem pudor

O que não era substância da matéria
Deitou veneravelmente a seu favor
Faminto e paciente sístole da artéria
Mostrou em seu ensejo o esplendor

Um ovo desnascido com o sangue era expelido
E eu bebia o ferro e o ouro em seu sabor
A não-morte-não-vida do buraco negro
Minhas papilas degustavam como um gemido

Um parto inexistente de mais um filho
Rebento no estalo da manhã emputrecido
Abstruso intervalo no alvorecer intumecido
Mais um deus de ouro venerável feito de milho

Caminhando para o oeste extremo
E a terra girando para o lado contrário
Houve apenas um único pôr-do-sol supremo
A escura infertilidade guardada num calvário

Pairam sobre a praia uma horda de mostros
Devorando o ar gelado que toca a areia
Nuvens enternecem as ondas de encontros
Do calor dos trópicos que em mim permeia

Outro dia olhei para a cidade soturna
Encontrei-me com os selvagens-de-concreto
A noite urbana caída em farfalhos do teto
Destroços que a deixavam ainda mais noturna

O desprezo apavora como a boca podre
De um leão que nos devora de repente
Com aflito e doloroso grito ardente
Bebendo a água calma de um rio ocre

Como um meteóro estrondoso que pegou de surpresa
A raça bendita que exterminaria o homem
Mais um pouco de carne podre na presa
Dessa mandíbula encarecida talvez não fizesse bem

Uma dor prazerosa me invade quando acordo
Sinto uma triste alegria e uma alegre tristeza
Sei achar felicidade sempre quando concordo
Em buscar na incerteza qualquer beleza

Um pássaro humaniza a árvore cantando
Dentro do meu olho escorre para o ouvido
Ideia completa com som e imagem vidido
Um homem passarinha o chão voando

sexta-feira, 11 de abril de 2014

A noite tece
Os incompreendidos
Pontos luminosos

Nos antecede
Seus brilhos perdidos
Gozos pecaminosos

O dia enudece
Malezas ocultas
Sombrias reentrâncias são fendas
de ouro
Porque o dia dura mais no verão

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Na noite longa o homem conta estrelas
O frio é mais forte sem ter o que comer
Vamos dançar entorno da fogueira
E entoar cantos para nos aquecer

A infâmia acordou aquela noite
Com rancor audaz em seu açoite
Percorreu becos imundos e entrou
Na casa mais bonita que encontrou

Naquele inverno o rico tinha conseguido
Almoço e janta fartos pros seus filhos
Tudo o que a infâmia tinha perseguido
A paços largos como eletricidade pelos fios

A atrocidade ganhou seus berços de ouro
Onde os intocáveis primogênitos dormiam
O primeiro foi morto como a um touro
Com flechas encantadas que lhe estraviam

O sangue bravio e indômito dos burgueses
O segundo se desterrou desfacelado
Os membros engolidos por um monstro alado
O terceiro foi docemente coberto de fezes

Foi envenenado com torpor vilaço
E sobreviveu ao duro e quente aço
Que o marcou para sempre com o brio
No âmago corrompido e um calafrio

Que fez morrer todas as flores ao redor
No discorrer medonho dos seus lábios
De uma baba viscosa e de um odor
Que fazia desmaiar todos os sábios

Todos perceberam a torpe maldade
Moldada suavemente com fidelidade
A casta mais impura das riquezas
Conhecia a mais cruel das pobrezas

Quem queria ter marcado no couro
A concreta certeza do fracasso
Ter de si tomado o seu tesouro
Ver de perto seco o teu regaço

Quanta frialdade judicante
Pode-se sentir sem dar-se conta
Eu queria ser uma bacante
E dançar beba e tonta

Na cantiga da ciranda nua
Uma dança obsconsa e bela
Ou ainda no meio da rua
Onde foi bosque e hoje há favela

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Nada de dizer que não valeu a pena
Para de pensar que nada aconteceu
Tudo é muito sério nessa vida
Para que se finja que esqueceu

O mundo que nos é dado
Já está lá

Abra sua porta para quem quiser
Usufrua como achar melhor
Aproveite sem motivos
Não há nada para comemorar

Faça bom proveito do que se dispõe
Lamente quando termina o que foi
Como todo humano sofra

Nada com que se preocupar
Pois isso de fato é o que importa
Faça sua própria ordem
Onde tudo é permitido

Contra o que guerrear
Para terminar o inevitável

terça-feira, 8 de abril de 2014

Tem muito tempo que o mundo é mundo
Que se morre mesmo
Que se é desleal

Paladinos, justiçeiros vão tomar no cu
Se morre porque está vivo
Se mata apenas por prazer

Vai procurar a justiça na puta que te pariu
Você com seus valores cristãos
Já tem muito muito tempo que o mundo é mundo

Não têm espíritos, não têm deuses
Somente a fome e o sangue
Somos famintos sem compaixão

Você tembém que falou que não
Defende bem os seus
Com quem mais você tem consideração

A carne é mole e o sangue jorra
Eu te ajudo hoje mas amanhã
Seu fígado pode ser apetitoso

Salvadores do mundo escolhidos por si mesmos
Só desejam salvar suas próprias peles
Adoradores da nobreza, odiadores de pobreza

Nesse mundo nada tem valor
Nada que não venha da natureza presta
Somos bichos sem alma

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Nada pode parar
Está tudo tão veloz
Eu envelheço
Não tenho pressa

O rio não se importa
Cachoeira cai
Lago se forma e vai
Para o mar

Lá no alto
Tudo parece calmo
Logo as nuvens vêm
E eu não posso ver nada

Mas sei que tudo continua lá
Estradas, pastos, casas
Caminhões, vacas, gente
Cada qual no seu lugar

Indo e vindo
E vai chegar o carnaval
Tudo vira festa
Hoje estarei feliz

domingo, 6 de abril de 2014

Há dinamite para explodir
O diamante que me convir
Quero expandir meu lado escroto
Não me dê champanhe eu quero esgoto

Num copo bem vistoso
Que pareça um cálice
Um líquido pavoroso
E medonho como a hélice

Que decepa a ponta do dedo
Distraído

Sirva-me a lavagem no banquete
Morda a minha pica no boquete
Eu quero é ver s
                           a
                             n
                                   g
                                          u
                                               e

Nada melhor que o sangue para
AGUÇAR       AS       RETINAS

Falácias, falácias, falácias
E virgens descabaçadas
Crimes passionais

Fazer tremer a têmpora e saltar as veias do pescoço
Criar alvoroço
Ante o destino fatal não escolher o
belo
Antes se aproximar do horrendo
Antes que se esteja morrendo
Para não fazer feio com
A morte

Morrer um dia a cada dia se renova
O sangue e a saliva que se troca em cada encontro com a sorte
                                                               De não se sentir sozinho.
Se é mais humano quando
se pratica o mal

sábado, 5 de abril de 2014

A exelência é terrível
Teima em corromper os inaptos
Esmerilha e suja a simplicidade
Adestra e aprisiona a espontaneidade

Maldita mania do sensível
Queima ao interromper os ineptos
Comunga de pé com a ignorância
Molesta e lesiona a intolerância

Ter uma ânsia tão morbida que toque
A sombra da minha juventude em choque
Contransta com a felicidade que tenho
Quando vejo um bicho morto e venho

Sorrindo debochado da animalidade crua
Que pousa na crueldade em cada esquina
Desejando amor aos moribundos na rua
E assistindo a sorte que culmina

Na colisão escusa de uma rosa
Com o espinho inocente que te fura
O dedo fino de maneira dolorosa
Inquieto chupo o sangue com ternura

E não deixo escorrer nenhuma gota
O instante destilado não resiste
E estende-se qual lábaro estrelado
Cosido no improviso a moda rota

Úlceras me nascem nas membranas
As mucosas macias se ressecam
E os sinais de infecção me entorpecem
De tantas ameaças irrompidas

As nossas frágeis e precárias cabanas
E aos belos tronos em que defecam
As realezas que afetadas se apetecem
De tantas mentiras proferidas

sexta-feira, 4 de abril de 2014


Ouve-se um estrondo
Houve um lapso
Ponto ou reticências

Provoco o fracasso
Respiro metano
Tiro do lixo
O que comer

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Permaneço inerte na nojeira
Eu precisava sair da imundicie
Mas sinto vontade de beber vômito e comer carniça
Nada melhor que o cheiro de carniça pela manhã só o cheiro de vômito no café
Acordar e dar de cara com a podridão fétida
É como pisar em bosta persa e não se sentir confortável
Eu gosto da textura da merda
Deitar-se refestelando nela

Tudo que é bonito demais
Se estraga muito rápido
Se não há defeitos aparentes
Deve estar muito maquiado

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Deletérios de feridas abertas

Ninguém quer abdicar das mordomias
Absorto em suas próprias manias
Futricando a perder de vista
Com a alma morta do artista

Esperei ouvir de novo
Era o clique do tempo
Me chamando a atenção
Que já se punha tarde

O intervalo virou um ovo
Um pássaro voou no vento
Quis arrancar seu coração
Para fazer dele uma arte

Bate-me o tempo na aorta
Curva-se o sangue na diástole
E aquele corpo morto e mole
Goza sua natureza doce morta

Torna-se um mito o momento
Que arranco-lhe as asas e os medos
E com uma pena na ponta dos dedos
Escrevo-te este claustroso lamento

Para desinstigar nossos tormentos
De muitos fatos antes descumpridos
Das promessas nunca dantes respeitadas
De outros e tantos falsos sentimentos

terça-feira, 1 de abril de 2014

O castelo desmoronou
As paredes racharam
O banquete foi servido
Era coração de ave

A mesa estava posta na rua
Os monarcas serviram o povo
Dez pratos foram preparados
A partir da rara iguaria

O veneno que me curou
Das colinas brotavam
Um dia foi proibido
Com sua fumaça suave

Alva névoa densa e crua
Flutuando pelo ar de novo
Acalma os pensamentos perturbados
Para que a mente enfim se ria

segunda-feira, 31 de março de 2014

Filho da fumaça e da pólvora
Amante da faísca e da fagulha
Acende-me um fogo que devora
Adorar a chama que me orgulha

Venero as labaredas agitadas
Que o vento alastra sem fadiga
A fúria de centelhas excitadas
Consomem numa dança antiga

A essência de flores escolhidas
E também as casas distraídas
O que não me causa consternação
Mas uma profunda satisfação

No meio da fumaça densa
Que os meus pulmões respira
Encontro a alegria distensa
Num instante incendido numa pira

Qualquer coisa que me acenda
Qualquer coisa que me aqueça
Desejo sempre sua quente fenda
A envolver-me antes que me esqueça

Porque a lembrança é como o fumo
Ainda que não se saiba seu rumo
Se esvai dissoluta e passageira
A misturar-se a transcorrência ligeira