sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

As pessoas verdes chegaram
No país das pessoas azuis
E os escravizaram
No país das pessoas vermelhas

Os verdes queriam
Pintar tudo de verde
Os azuis queriam
Pintar tudo de azul
Os vermelhos queriam
Pintar tudo de vermelho

Antes os verdes não queriam
Nada pintado de azul
Mas que os azuis sempre
Pintassem tudo de verde

O verde cobriu o vermelho
O vermelho coloriu o azul
O verde escondeu o azul
O vermelho acendeu o azul

Todas essas cores misturadas
Apreciaram-se de outras cores
Aproximaram-se de outro viés
Aperfeiçoaram-se em outros tons

Tonalidades que coloriram
Essa nossa vasta terra
Terra do vermelho, do verde
Do azul e de todas as cores
Que os matizes permitirem

Depois da grande guerra
Entre as pessoas vermelhas
Verdes e azuis de muitas tintas
Todo mundo saiu manchado

Cada cor apreendeu um pouco
De outra cor e apresentou
Uma gama mais abrangente
E toda essa gente colorida

Fez um mundo novo e diferente
Com muitas cores vivas
Mas não foi gentilmente concedido
Com ardor tenaz foi conquistado

O azul ensinou de azul o verde
O vermelho pintou de vermelho o verde
O verde se coloriu
De vermelho e de azul

Se não fossem todas juntas
A compor essa aquarela
Não seria de sangue, de suor e de lágrimas
Esse solo sagrado e marcado

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Uma rua é um rio quando chove
Onde era mato
Charco, brejo, pântano

A água acumula-se rapidamente
As nuvens no céu são pesadas
E a chuva cai inconsequente
Enquanto as pessoas correm apressadas

Os ônibus simplesmente não passam

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Construções antigas
Símbolos milenares
Detalhes que pouco já não se vêem escondidos

Me levaram procurando descontente
Sentido no topo dos prédios
Pela rua semi deserta de uma tarde de domingo

Caminhei até a praça
Observando a morbidez
Concretizada na memória daqueles imponentes significados

Andei sem confiança
Evitando de longe o beco
Entender é questão de treinar os sentidos pois nada é sagrado para a modernidade

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Será que o amor
É uma flechada na testa
Que de repente
Te atinge distraído
Bem no meio dos olhos
E perfurando os ouvidos
Descendo sangue do nariz
Ou bem no meio da boca
Decepando a língua
Ou como mil lanças afiadas
Te cobrindo o corpo
Despertando o interesse dos sentidos
Mantendo o desejo fixado firmemente

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Alguém vai fazer
Alguém tem que fazer
Se você não estiver lá
Alguém fará no seu lugar

Se não for você
Alguém estará lá
Se você não estiver
Alguém vai fazer?

Você tem que estar lá
Para ocupar o seu lugar

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Eu me sinto muito feliz
Olhando esse mato que nasce
Bem ali no sulco do meio fio

Sabendo da existência
Das formigas das lagartas das baratas
Suspeitando de alguma conexão

Eu me sinto tão feliz
Mesmo nessa cidade dura e doente
Me alegro com o vento nos prédios

Olhando os pequenos insetos
E cobiçando as profundezas da terra
Vislumbro um pedaço do céu

Eu me sinto tão feliz
E é por isso que me sinto tão sozinho
Tão conectado a natureza assombrosa

Procurando desalento e compulsivo
Significados cada vez mais delirantes
Para toda alegria que eu encontro

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Algo brotou no bosque
Não foi uma bela flor
Era um pequeno cogumelo

A surpresa que trouxe
O amargo gosto à boca
Não entorpeceu os sentidos

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Pensa um átomo
Uma partícula
Boson de Higgs
Partícula de Deus

O grande badabum
O biguebem
Um sopro divino
Com hálito podre


Organiza a dinâmica
Da animação e encaixamento


Pensa um elétron
Ser movente
Saltando camadas
Se lançando por aí

Diante do nada
Pertence nenhum lugar
Que se conheça
Que desapego

Talvez só exista
Onda e corpúsculo
Que te move
Que te desloca

Algum outro tipo de magnetismo

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Anoiteceu
O sol permaneceu lá
Bem paradinho
Se corroendo dentro de si

A terra se inclinando
Bem devagarzinho
Permitiu fazer-se noite aquele dia
Tudo já estava planejado

Escureceu

As estrelas ordenaram brilhos cintilantes
E a lua se queixou indignada:
eu não sou abajur para ficar aqui parada

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Auto-retrato 1

Agir exigir esforço existencial depressão abismo
Surpresa fraqueza realeza luz escuridão
Invasão da maré tempo espaço raiva música
Noite de repente sociedade civilização cidade
O encontro com os olhos no bolo noite idiota
Cercado pelos mendigos atração pararaio
de maluco paraíso jardim estado e água
Seduzir conter não conter suspiro sopro encanto
Induzir reduzir valorizar o corpo e os sentidos
Átomos poder de criação caos terra tártaro eros
A indiferença da natureza o quantum eixo
Baixa tuas armas lembrança infância curva
Reencarnar brotação desenvolvimento espírito
Crescimento expansão tudo está aqui dentro
Céu universo átomo cérebro chave corpo sensações
Seduzir amputar a punhaladas uma parte
Pressa paciência aflição idiota id idioma
Colapso fim do mundo como conhecemos
Revelação danação sinos trombetas falta
d'água e alimentos resquícios ressureição
Formigueiro suicídio redenção proliferação
Ameba café cana rosa cravo lírio fumo alfazema
Milho margarida segredo compromisso lealdade
Exterminar amor futuro passado criado
Desejo prazer imaginação à loucura ou
à morte sentidos sensações sentimentos

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Carrego comigo a certeza de que tudo existe
Em apenas um instante que não se repete mais
Nada resiste

Os sentidos dão ao corpo prazer e dor
Não sei o que me leva
Eu sinto muito prazer
Como se fosse uma surpresa

Teve uma época que me obriguei
A ter prazer apenas com a natureza
Aprender com ela
Deixar os meus sentidos
Perceberem todo o prazer
Que a natureza pode me oferecer

Os meus sentidos foram
Aprofundando como raízes
Até a lava no centro da terra
As folhas celestes confundem as estrelas

Peguei essas raízes moí
Fiz um elixir e bebi

Peguei essas folhas queimei
Fiz um incenso e inalei

O aroma levou minha memória
Ao espaço e foi lá que entendi
Que o bom é o meio
Nem o fim nem o começo
Nem o fundo nem o topo
Mas quero de tudo um pouco

Nesse planeta os meus sentidos
Estão apurados para a beleza
E complexidade da natureza
Que nem ouso entender
Apenas sentir

Quando toco teu corpo
Prazer é o que sinto
Quando sinto teu cheiro

Estes instantes se tornam eternos na minha memória

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A eternidade apenas dura o intervalo
O instante que a memória perdura
Perpetuamente retoma o sentido
Quando a imaginação se aprofunda

Algo indescritível não tem explicação
Pertence ao sentir
Nesse momento confesso
Mas tento

Quando meus olhos te sentem
O mundo se faz no seu contorno
Tua pele teve o toque mais terno
Teu cheiro é bom simplesmente
Teu cheiro mesmo
Dos teus cabelos
Sentir teu cheiro e me enfiar nele
Me enfiar nos teus cabelos
Sentir tua respiração
Sentir a textura e temperatura
Da tua boca o calor
E teu gosto
Da tua pele
O prazer do teu toque
Dos teus cheiros
Dos teus sons
Tudo me dá um prazer imenso
Sou feito de prazer
Desejo sensual

domingo, 16 de fevereiro de 2014

É por isso que eu me lanço
É por isso que eu me encanto
É por isso que eu me elevo
É por isso que eu me confundo

Esse mundo de prazer funde meus sentidos

Meus olhos
Meus ouvidos
Meu nariz
Minha boca
Meu corpo

Sensações se destilam e me conectam
Sentimentos inundam e convergem

É algo que sempre procuro
É algo que me permito

sábado, 15 de fevereiro de 2014

De fato acredito não ser possível saber tudo
Conhecer tudo que existe nem é possível
A verdade é inconcebível
Só se pode ver sobre o véu
O mais a gente inventa

Do que se vê nada é real
Rei
Realeza
Realidade
Preterindo todas as verdades plebeias no meio das multidões

Imaginem
Tudo é ilusão
Absoluta busca eterna sem propósito
É impossível conhecer todo saber

A verdade absoluta
Somos incapazes de alcançar vivos
Sem nos afastarmos do saber do conhecimento
E nos aproximarmos do saber dos sentimentos

A verdade que se pode ver engana
A verdade que se pode criar ecoa
Não é preciso saber tudo
Mas é imprescindível aprender a sentir

Pois a verdade que não se pode ver com estes olhos
Não se permite apreender completamente
A complexidade que nos é impossível saber

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Salto mortal
No abismo sem medo
Do fundo do poço da depressão

A todo instante
A cada instante
O novo instante
Esse tal instante

Novo de novo repetindo de novo
Nada é igual
Mas ao mesmo tempo é de novo

Para amar a vida
Dá amor à morte
Desejo de morrer
É prazer de viver

Foi no fundo do poço da depressão
Que eu me reinventei
Com restos de mim mesmo

Me recompus e subi
Redescobri o prazer
Nas coisas animadas
Mais mais mínimas

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Minúcias de um simples princípio
Que em sua pequenês está em tudo
Todos são capazes de sentir
Poucos dão de vida importância
Aprendi a realçar
O que de relance se alcança
Para dar relevância

O que me move é um brilho no olhar
É um brilho no brilho
Onde tudo parece fosco
Onde tudo parece escuro
Onde tudo parece feio
Onde nada é desimportante
Onde nada é indispensável
Onde tudo é sério

Este instante na memória
Guardado eternamente na imaginação

Uma pedra que canta
Um pássaro que me alinha
Um instrumento que me afina
Uma formiga que me provoca

Algo que eu como com sua trajetória
Pessoas envolvidas que o fizeram chegar
Até mim

Tudo me encanta
Um vento uma onda
Um farfalhar
Um lusco-fusco
Um vaga-lume crepitante
No fogo dos meus olhos no breu da noite
As luzes das velas tremulando
Uma pedra sob um lagarto
O que tem entre as estrelas
Tudo que dura um instante
Qualquer beleza
Qualquer flor morta
Alguma fumaça
Umas sombras

Tudo é chamado
Tudo é aviso
Tudo é movimento
Tudo é desapego
Nada é definitivo

Tudo pode conter o que me convir
Mas é sim impossível deter o devir

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Aqui se vive para morrer
Se vive sempre morrendo
Morre sempre para se viver

Só se vive pois se vai morrer
Se morre sempre para viver
Sabendo que sempre morre

Vive

Um viva para a morte
Que nos ensina a viver

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Me faz feliz sofrer
Se eu não sofresse
Não seria tão feliz
Só penso em morrer

Me mato de pensar
Me alegra me matar
Sempre desejo a morte
Tudo que quero é morrer

Sinto que quero morrer
Eu preciso me matar
Quero tanto a morte
Quero matar alguém

Se este mundo tem salvação
Seria o primeiro a me matar
Para que houvesse solução

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Quero ver a desgraça alheia na câmara de gás
Quero rir disso
Quero ser aquela família sufocada com gás 
Quero incendiar a casa de uma família negra 
Quero ser o pai daquela família incinerada 
Quero empurrar aquele tolo amante da janela do décimo terceiro andar 
Quero ser empurrado com ele 
Quero ser ele caindo
Quero espancar um mendigo 
Quero ser esse mendigo que espanquei 
Quero acertar uma bala perdida na cabeça de um inocente distraído 
Quero ser esse projétil 
Quero ser esse inocente 
Que senta na cadeira elétrica 
Que liga a alavanca 
Que dispara o gatilho 
Que libera o gás 
Que acende o fogo 
Que pressiona a seringa 
No meu leito de morte 
Desliga os aparelhos 

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Nesse mar que eu me lanço
E me deixo afundar
Quero ser profundo
Esse oceano de muitos mares
Me afogam
Não quero a superfície
Quero descer cada vez mais
Até respirar água

sábado, 8 de fevereiro de 2014

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Faz silêncio na minha cabeça
Paz eu não tenho paciência
Gosto quando as coisas acontecem
Eu quero ver o beijo mais doloroso
Me beija assim

Faz silêncio na minha cabeça
Apaga as mais bobas lembranças
Para que eu possa ter nova paz
Acho que é a maré mas é lodo
Preciso de lágrimas

Faz silêncio na minha cabeça
Pois insistir em deixar querendo
O corpo parece um trapo surrado
Me banhei no açude mas era pântano
Ledo engano

Faz silêncio na minha cabeça
Senão cometo infantis bobagens
A memória é trapaceira nos gestos
E nos olhares que como eu sou tolo
Me esforço para receber

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Queria estacionar uma bicicleta
Numa vaga de carro
Sou avisado com carinho
Como não coubesse
Insisto e brigo

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O abismo é mesmo sedutor ao poeta
Hoje e sempre é uma babaquice ser poeta
Uns debates ridículos sobre técnica e arte
E uma palhaçada ser chamado de artista

"Artista é o caralho"
Já dizia o poeta
"Desde os primórdios até hoje em dia
o homem ainda faz o que o macaco fazia"
"Desde os tempos mais primórdios
o caralho tá aí"
O fazer poético é mesmo do caralho

Eu sei que sou ingênuo mesmo
Eu sou um animal sentimental
Me entrego extremamente aos meus sentidos

Poeta
Não seja estúpido
Observe em sua mão
O coração não pára de bater
Mesmo depois de arrancado
Depois do choque
Mergulha em água salgada que passa
Põe ele no lugar e aguenta
O choro alimenta a tristeza
Deboche dele e ironize-o
Como ferro em brasa com prazer
Sorria para tristeza com educação
Essa dor para os diabos é refresco

Lá no fundo quando desço é lava pura
Vejo que tudo permanece sempre igual
O que é incerto me amedronta e fascina
A decepção ainda me pega de surpresa

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Dia claro
Escuto o dia
Aguço meus sentidos

Escuto os pássaros
Percebo o som do dia
Acolho minha imensidão

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Preparo o barco
Preparo o arpão
Preparo a corda
Preparo a rede
Pescando em alto mar
O tempo não ajuda
Minha fome aguda

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Me seduz uma agonia dolorosa
Das lembranças que mais quero esquecimento
Me marcou profundamente o pensamento
Os espinhos escabrosos desta rosa

No princípio os seus olhares me chamavam
E os seus gestos impulsivos me encantavam
Mas decerto o que talvez antes tivesse
Alcançava bem mais alto que sonhasse

Me afastar no silêncio pretendendo
Encontrar paz muito além do meu lamento
E apagar em mim esse mal que está doendo

Me livrar desses agouros repulsivos
Que tanto me deram descontentamento
E acalmar estes enganos compulsivos