segunda-feira, 31 de março de 2014

Filho da fumaça e da pólvora
Amante da faísca e da fagulha
Acende-me um fogo que devora
Adorar a chama que me orgulha

Venero as labaredas agitadas
Que o vento alastra sem fadiga
A fúria de centelhas excitadas
Consomem numa dança antiga

A essência de flores escolhidas
E também as casas distraídas
O que não me causa consternação
Mas uma profunda satisfação

No meio da fumaça densa
Que os meus pulmões respira
Encontro a alegria distensa
Num instante incendido numa pira

Qualquer coisa que me acenda
Qualquer coisa que me aqueça
Desejo sempre sua quente fenda
A envolver-me antes que me esqueça

Porque a lembrança é como o fumo
Ainda que não se saiba seu rumo
Se esvai dissoluta e passageira
A misturar-se a transcorrência ligeira

domingo, 30 de março de 2014

Todos somos pobres coitados miseráveis
Agonizantes agoniados angustiados
e sem remorso

O coletor e caçador
Encontrou o cordeiro
Caçador de recompensas
Cansado
Inventou o gradeado
Se afeiçoou de seu novo amigo
E trouxe as boas-novas:

Não há mais fome nem sede nem frio

Cultuaram os seus filhotes
Ensinaram-lhes toda a lida
Sem esforço e sem perigo
Era bem melhor a vida

Logo desaprenderam a dividir
E duvidaram das partes que lhes
cabiam
Fígado rins e pâncreas
Intestino pra fazer linguiça

Lã lombo e coração
Chega até a dar preguiça
Tudo era aproveitado e destinado
a quem julgavam merecido justo
Uns acharam errado

Descobriram a falha
Mas foram dormir

O banho no rio foi proibido
Todos queriam comer coração
Logo cercaram o rio e
Cercaram também o coração

Criaram-se os desafios
Todos os animais foram convocados
Espalharam-se aos quatro cantos
Notícias e manchetes boca-a-boca
E a boca pequena foi crescendo
Engolindo todos os sonhadores

A procura pelo bem crescia
Enquanto a oferta diminuia
O decréscimo constante da fartura
O acréscimo flagrante da penúria
Que nos acomete a cada dia

sábado, 29 de março de 2014

Outro dia era mais tarde que
de costume
Vi o lixo espalhado de um restaurante
chique
Dei dois passos mais a frente
Me deparei com um mendigo
comendo................................

Tinha o sexo de mulher
Era um ser humano
Comia feito um bicho
Tinha aparência deplorável
Mas os seus olhos pretos
Fundos de uma imensidão longínqua
Eram doces e suaves

Em algum lugar não muito longe
dali
Surrealmente caiu um piano de
cauda
Despencado do terceiro andar
Voa pela janela panorâmica em frente
a praia..................................................

Onde fumava sozinha num canto
um cigarro
Uma mulher elegante com um sorriso sarcástico
Cuspiu e seu escarro caiu
Sobre toda a humanidade

Pairou um silêncio profundo na
rua.............................................

sexta-feira, 28 de março de 2014

Nas florestas ouviu-se gritos de pavor
Dentro da selva uma mulher nua URRAVA
Amarrada numa padra cantava com louvor
Cidade do medo da morte ela gozava

Gozava e se ria de pânico e prazer
A cidade avançava e o concreto
Surgia trazendo a treva de sua sombra
Alargando a pútrida cova do beco

A rua da vala escorria
Até à beira da prainha
Do alto do morro se via

A rua é nosso pé descalço
Se arrastando em uma linha
De sangue fresco em seu encalço

A rua é o rastro dos transeuntes
A rua é a trilha dos desbravadores
A rua é a via dos mercadores
A rua é a feira dos comerciantes

Feirantes na Rua do Mercado
Comércio na Feira dos Mascates
Finanças contas e cobranças
Compra e venda
Preço
Prazo
Quitou uma dúvida

Restou uma dívida

Tudo começou a ter seu preço
Começaram pelo gozo

Mercado a céu aberto
Tudo-se dava
Começaram a cobrar
Há profissão mais antiga
Do que ganhar pra trepar?

Canto
A bestafera
Treme
Eu gozo

quinta-feira, 27 de março de 2014

Canta canta cidade imunda
Como eu gosto de você
Ninguém é dono da rua
Ela pertence a ninguém
Ninguém faz dela o que quer
Ninguém ama a rua como
Ninguém ama
Ninguém satisfaz suas carências
Ninguém faz por ela o que
Ninguém faz
Ninguém toma conta dela
Ninguém deixa ela em paz
Ninguém cuida
Ninguém limpa
Ninguém bota pra dormir
Todas essas ruas juntas à noite
Fervilhando ocupadas por aí
Onde será que elas vão dar

O prazer de se perder nesses labirintos
O prazer de se encontrar perdido
O prazer de deixar o desconhecido
Guiar o instinto de elucidar

quarta-feira, 26 de março de 2014

Pra encontrar o caminho de volta
É preciso sair do lugar
Deslocar-se dar uma olhada em volta
Lá que é lugar pra ficar
Tornar a dar mais uma volta
Onde o caminho é circular
Lá tem uma dança revira e volta
O sol sempre retorna a brilhar
Ciranda não pára e dá mais uma volta
Cantigas novas no vento a ressoar
Como o clima é aprazível em volta
Mulheres lindas há pra eu amar
E tudo que eu quero é tua volta
Pra que eu possa me matar
De esforço e gozo e com revolta
A minha pica (com força) te encravar
Bem no meio da olhota
De sua porta de trás
Sem que antes cuspa em volta
E muito menos avisar

terça-feira, 25 de março de 2014

segunda-feira, 24 de março de 2014

O ser humano nasceu
Pra morar no ermo
Na caverna abrigou
Pra fugir-se da chuva

Seus pertences primários
Protegeu-os do frio
Convocou seus signatários
Perto da beira do rio

Caminho reconstituído
No íntimo recôndito
Elo estabelecido
No altar indômito

Abriu na margem uma praia
Desceu a correnteza num tronco
Achou uma cidade encantada

Tentou regrassar mas já sem volta
Permaneceu lá onde o sol se põe

Aceitou desfiar o encontro
De desconhecida fenda enfeitada

Ser humano desencobria o ouro
E cutucando despertou a ambição
Assim a ganância de um brilho puro
Raiou sedenta de orgulhosa alegria

Nuvens negras recobriram lentamente
O céu e a terra foram separados
As profundezas tiveram seus direitos
De subir à superfície entre a neblina

O demônio veio com o pêlo louro
Acordou a cobiça-flor que lampeja
E edifica um alto e branco muro
Com farpas desejosas de sangria

Que cortam fundo e furam gentilmente
A mão boba distraída e curiosa
Que teima em segurar arames farpados
E uní-los rente junto ante o peito

domingo, 23 de março de 2014

Lavoro
Laboratório
Labirinto
Caminhos da ciência

Biblioteca?

Jardim do saber
Paraíso labirinto
Sabor de conhecer
Saborear

sábado, 22 de março de 2014

Quem foi lá onde não se foi
Que não viu o que não se vê
Foi lá ver onde não se viu
Não viu o que não foi lá ver

Não foi o que não viu lá ser
Se foi então não viu porque
Não sabia o que reconhecer
Querendo ver o que não sabia

Viu mais do que tudo que foi
Foi tudo o que não conhecia
E o que mais não poderia ver
Foi além do que se sabia ser

E por ser tudo o que não sabia
Não sendo saberia o que não viu
Ali viu tudo que foi não sendo
Sempre sendo o que nunca foi

E quando foi o que nunca se viu
Sendo ali o que nunca se foi
Se viu aqui o que não se sabia
Descobrindo-se o que sempre foi

sexta-feira, 21 de março de 2014

O labirinto no jardim e o viajante da floresta

Quando você não pode saber
Onde começa e onde termina
A si mesmo está perdido
Diante do desconhecido

Como se pode saber
O sabor que não experimentou
Como se pode saber
Se viu o que nunca se viu

Parece bobagem
Pouca bagagem
Falta do que fazer
Talvez haja o que se fazer
O que não se faz já está feito
Mas volta-se sempre atrás
Nos caminhos percorridos

E volta-se para não ser
a mesma coisa
Reles coisa

Entre as paredes
Emprensado entre paredes
Paredes
Paredes imensas
Paredes de árvores
Árvores mortas
Mortas e sem vida
Onde não se vê circular

E você não se vê refletir
Seus passos avançam
Já não são mais os seus pés que caminham

Andam andam andam
Percorrem esquinas
Curvas que tornam a curvar
Dobrando esquinas
Dobrando curvas

No final
De um ponto a outro
O que valeu na chegada
Não se sabia na partida

E o trajeto recomposto
E depois recontado
Redesenhado

As paredes arranhadas
Os rastros
As pegadas
Os tropeços
As mãos apoiadas
Para não dar de cara

E quando chega a luz
Lembranças coletadas
Dos dias sombrios
Conduzem a outros
labirintos

quinta-feira, 20 de março de 2014

Saúde na vossa casa
caríssimas primas,

Ência
Ciência
Carência
Querência
Eloquência
Coerência
Experiência
Veemência
Aderência
Paciência
Consciência
Consistência
Consequência
Referência
Preferência
Abstinência
Adstringência
Recorrência
Repetência
Resistência
Competência
Insistência
Audiência
Demência
Ausência
Essência

Perdoem-me se esqueço alguém,
Quando terei a graça de uma nova visita?
Com amor,

Ânsia

quarta-feira, 19 de março de 2014

Tenho um quintal
Onde sento
Lá atrás
Entre o bambuzal
Cercado de muros
Vejo micos e sabiás
O quintal de fato não é
meu
Penso nesse lugar antes do
muro
Já com bambu
Esse lugar que eu chamo de meu

Vejo também outros pássaros ordinários
Fico lá por horas sentado
E deixo-me pensar o que quiser
Descanso alguns minutos
Entre o bambuzal
Minhas retinas minha cabeça
Vejo o céu alguns telhados
um coqueiro e o muro

Vejo também todo lixo
do fundo do meu quintal
Esse quintal que não é
meu
É meu antes de ter os muros
mas já com bambuzal
Um canto desaproveitado
Sobrando escondido
Entre os quintais do meu
bairro
Que também não é meu
Eu só moro nele
Eu não moro exatamente nele
Eu moro numa rua (dele)
Eu moro numa casa (dela)
Habito essa casa
Moro no meu quarto
Saio e volto
Saio e volto
Saio e volto

Vou a outros cômodos
Vou a outras casas
Vou a outras ruas
Vou a outros bairros
de outras pessoas
Da nossa cidade

terça-feira, 18 de março de 2014

Nadei até esta costa
Através do grande mar
Era um mar fundo e feroz
Nadei e depois nadei

Cheguei com a mesa posta
Era um dia para se amar
Mas era um amar algoz
Cheguei e enfim cheguei

Entrei na mata densa
Tinham pedras para quebrar
Foram mais muitas pedras
Bem-quebrei e mal-quebrei

Cavei uma cova extensa
Tinham muitos para enterrar
Foram mais tantas perdas
Te enterrei e me enterrei

Colhi depois de meses
Muitas frutas de um pomar
(As ervas cultivadas)
Nasceram do meu suor
Foram tiradas de mim

Guardei as minhas fezes
Para poder esfregar
Na sua cara o pior
Das minhas entranhas para ti

Repousei então feliz
Com a noite para cantar
Suas vísceras na boca
Para sentir o seu gosto

Respirei pelo nariz
O odor fétido no ar
(Pulmão cheio de fedor)
E com minha voz rouca
Quis mostra-te o oposto

Dormi mais uma noite
Quando vi estava em casa
Era um pesadelo vivo
Verei meu filho crescer

Senti medo da morte
Voando a uma rasa
(Rente a minha cabeça)
Com todo o motivo
Morrerei hei de morrer

Acordei com um carinho
De um raro esplendor doce
Suave em minha face
Pois assim retribuí

E pelo meu caminho
Por mais duro que fosse
Pedi que eu aceitasse
Tudo o que eu instituí

Lutei pois nasci lutar
Escrever é preciso
Como viajar também
Escrevi como escrevi (...)

Decidi enfim parar
Tanto um quanto indeciso
Nunca quero ser refém
(Do que não vai me matar)
Refleti mas refleti

Como quem está no jugo
Minha cabeça na forca
Disso que chamam destino
Quis cortar essa corda

Mas é dela que sugo
Toda essa minha força
Para esse meu desatino
Que é parar bem na borda

Andei bem afastado
Para poder me pensar
Como um eu em mim mesmo
Afastei-me e nada vi

Voltei agoniado
O que queria alcançar
Repousava no esmo
De tudo que não vivi

Hesitei continuar
Mas depois eu percebi
O que vale essa pena
No olhar de quem me sorri

Pulei para poder ficar
No abismo que recebi
Antever o problema
Não salva mas não morri

Continuei e voei
Quis saber como cair
Para poder me conhecer
Pousei depois retornei

Confesso que destoei
Mas eu não podia sair
Do sonho sem distorcer
Como foi que contornei

Essa grande enseada
Do ponto de onde nasci
Ao porto que nunca sei
Onde é meu cativeiro

Lá vou fazer morada
Aqui rejuvenesci
Na estrada onde despensei
Sempre fui futriqueiro

Corri para poder fugir
O que foi que eu encontrei
Sem mais me olhar no espelho
Um vale resguardado

E um leão feio a rugir
Próximo de onde eu entrei
Me dava um bom conselho
Que seria guardado

Até chegar este dia
Cruel e malfadado
Que é o do fim da mentira
E glória da verdade

Vou viver com ousadia
Se sou um condenado
Na mão de quem atira
Quero ver a maldade

Carreguei as lembranças
Para onde fui comigo
Eu já não estava mais só
Fui passear me encantei

E não fiz mais cobranças
Confiei como amigo
O que não era mais só
Mentiu então eu cantei

Passeei onde pensei
Onde obtive abrigo
Para minhas memórias
(Passei mais uma parte)
Que não podia faltar

Contei o que aqui contei
Nadei nu com o perigo
(Plantei bombas no jardim)
Numa dessas histórias
Que não podia acabar

segunda-feira, 17 de março de 2014

Organograma da compreensão do amor

Eros-Cupido, mais tarde chamado também Amor: “o mais belo entre admirados imortais, impele-membros, de todos os admirados e de todos os seres humanos este princípio criador doma no corpo o ímpeto impulso e a antevista vontade.” Hesíodo

AMOR PRIMORDIAL
Princípio cosmogônico
Ímpeto Impulso
Insta e Urge
Instiga e estímula
Entusiasmaticamente
Motiva a vontade
Incita o desejo
Incentiva o motivo
Inspiração
Desejo
Vontade
Querer
Motivação
Efeito do princício
Desejo sensual
Desejo de todos os sentidos
Atração
Sensacional


Sensório
Sensitivo sensível
Sensor à sensibilidade
Próprio para a transmissão de sensações
Sensorial

Traduziu tudo por amor.

Estergo-estudo:

Devoção
Adoração
Veneração
Prazer

Admiração
Maternal
Fraternal
Paternal

Vice-versa
Casal
Compreensão
Entre seres humanos

Dedicação
Bem-querer
Agradar
Atenção

Carinho
Cuidado
Respeito
Estima

Consideração
Merecido
Reconhecimento
Satisfação

Filo-dileção:

Afinidade
Interesse
Apreço
Reconhecimento

Indentificação
Atração
Agradar
Prazer

Admiração
Compreensão
Respeito
Estima

Merecida
Consideração
Satisfação
Predileção

Preferência de gosto e amizade
Afeto ou paixão estremosa

Agape-paixão:

Efeito que afeta e permite afeto
Afeição
Parcialidade
Acolhimento

Bem-querer
Amor ao sentido de paixão
Identificação
Espantosa admiração

Reconhecimento
Respeito
Compreensão
Compaixão

Amor admirável e até divino
Sentimento benévolo que a infelicidade ou o mal alheio nos inspira
Dó, lástima, piedade
Pena, cuidado, trabalho

Grande desgosto
Grande pesar
Sofrimento ou martírio
Parte das boas-novas que narra a paixão do escolhido

Paixão
Passional
Apaixonada
Impressão viva
Perturbação ou movimento desordenado do ânimo
Grande inclinação ou predileção
Afeto violento, amor ardente
O objeto desse amor

Apaixonado
Compadecido

Sentido que se sente
Sentido que se quer
Sentido que se quer dizer
Sentido signo significado
Sensação
Conhecer
Saber
Sabor
Gostar
Gosto
Cupio
Gosto
Sensação
Reconhecimento
Sentir prazer
Sentidos
Paladar
Papílas gustativas
Experiência
Prazer sensual
Satisfação
Sentimentos
Sexo

Amor
Amigo
Amicus
Amiguinho
Amante
Amistosa
Amizade
Amigável
Namoro
Em amor
Namorado
Enamorado

Amor, te quero por inteiro
Amor Dileção Estudo Paixão

domingo, 16 de março de 2014

O céu fica rosa
Por entre nuvens
Depois da chuva
Um clima ameno
Como eu sou torpe
É como os caramujos
E sua gosma nojenta

Infame caramujo invasor
O que te sustenta nessa capoeira
Encontra facilmente comida
Vai dissipando suas colônias
Seus filhos vão se espalhando
Escorrendo sua gosma inscrupulosa pelas paredes
E nos azulejos

Mais afora

sábado, 15 de março de 2014

A um menestrel afastado

Quando você vem com seu violão
A manhã se torna mais amena
Solfejando um samba-canção
Vai-se para aula triste com pena

Na sua ausência pouco se canta
No caminho onde nos rodeamos
Dos queridos amigos que amamos
Todos aqui te dizem: levanta!

Cantor! renasce, te anima e canta
Teu pai te ensinou a ser palhaço
Teu filho quer ver o teu sorriso

Sacode esse samba no coração
Mostra como tu és feito de aço
Levanta! e canta! pois é preciso

sexta-feira, 14 de março de 2014

De onde vem o amor?
Mesmo sendo qualquer coisa
Num momento se desperta
O que se sabe que não vê
Num instante se aperta
O músculo cardíaco dentro do peito
No cérebro pulsa
E as mãos transpiram
O corpo todo confunde o que sente
E a vontade de tocar
Que brota do desejo
Nasce de amor
Motor ígneo
Quer se transformar num beijo
Se o que eu sinto não me mente
A mente engana o que eu sinto
E transmite ao corpo
Numa confluência de sentidos
Sensações e sentimentos
Que não é preciso entender 
Apenas deixar fluir

quinta-feira, 13 de março de 2014

O sátiro e a ninfa do bosque

Procurando local ermo

O sátiro adentrou o bosque
Como parecesse perdido
Ali encontrou o ambiente
Para a sesta cotidiana
Entre as folhagens verdejantes
Como sempre inebriado
Descansava confortável
E observava as ninfas
Sem tampouco se importar
Mas a aproximação repentina
Fez o bicho se assustar

Penetrou no bosque absconso
Como quem persegue o mal
E esperou até estar faminto
Porque num banquete
Você aparece para comer

Quando as ninfas vêm brincar
Você não escolhe
Elas te cobrem de sangue
Te domam num beijo
E te oferecem uma bebida doce
Que no fim amarga

Sabendo que não devia
Foi brincando que se perdeu
E o bosque tornou-se
Labirinto das coisas que sentiu
E não soube sair
Das grades que separam
O que sentiu do que não viveu

quarta-feira, 12 de março de 2014

Acho que eu tinha uns 12 anos...
Dá até para imaginar
Cada uma tinha um bilho especial
É tanta estrela que dá até vertigem
E você vê aquela poeira cósmica

Fascinante

terça-feira, 11 de março de 2014

Dizem-me sábio
Guru
Conhecedor de temas variados
Desejo de aprender
Na superficialidade
Saber um pouco de tudo
Uma ânsia que não se sacia
De saber o que já se conhece
Preenchendo com sentido a
Profundidade do todo
Homem mais inteligente do
Mundo? Me lêem
Místico intelectual ecumênico
E por vezes até cósmico
Uma farsa talvez
Conhecer um pouco de tudo
Não para saber possivelmente
Mas para já ter ouvido
Como posso saber que não sei o
que eu não sei
Aprendo de tudo um pouco
Mas para o que presto
Invento fazer uma mágica
Que não é difícil de imaginar
Pois é impossível saber de tudo
Apreender e dominar o conhecimento
Obter a sabedoria
Crio me conhecer
Não sei nada que não sei saber
Nem saberia se não soubesse
Busco saber de tudo para preencher
um vazio - Leio para expandí-lo
Para que saber afinal?
O saber dá o sabor
O sabor dá o saber
Experimentar
Dado o ouvido a audição para
auscultar
Dado os olhos a visualização da
paisagem
Dado o nariz ao olfato para
inalar
Dada a língua ao paladar para
gostar ou não
Experimento
O que não gravo esqueço
Não lembro o que quero

segunda-feira, 10 de março de 2014

Enigma da Ilha Açúcar
Ao Mar de Limonada

Sinto muito
Mas não quero
Sinto tanto
Não sei o que é
Desejo
Mas não permito
Desconsidero
Mas entrego
Quero
Mas omito
Não peso
Falo demais
Por não saber o que dizer
Faço
Um causo virar uma estória
Tremo
Mas resisto
Transpiro
Mas escondo
Palpito a bomba central de sangue
Mas não pareço nada
Além do medo de ver tuas pupilas

domingo, 9 de março de 2014

(O que o meu corpo quer
Não é preencher minha alma
Mas sim uma parte do teu corpo
Com uma parte do meu)

Não há liberdade
Enquanto se está vivo
Lapso do clique infinito
Preso no reflexo
De um instante de prazer
(Apenas o desejo de prazer)

De repente repete-se quando largo de mão
Esqueço pois acredito que não foi nada daquilo que era

O que me mantém motivado
Nesse ciclo é a dúvida

Porque quem busca certeza
Deseja perder o interesse
Porque fazer nascer o encanto
Às vezes falha
Mas a inconclusão do desejo
Não é motivo para dor
Se pensas que sofro te enganas
Nem desafio saber o que sentes

Não luto para regressar
O que nunca se foi
Vai sendo o que não era para ser
E o que era antes
Já não existe mais
O que retorna é o desejo de prazer
Alinhamento
Sintonia que surpreende

Não almejo a conquista
Pois não espero o domínio
Convencer é questão de saber desistir
E nesse meu cárcere aprisiono
Essas lembranças que amarro
E jogo no fundo do poço

Por não querer me matar
Você corta apenas minhas asas

Mas essas abominações atrofiadas
Que se debatem para me erger
Crescem novamente

Estando com os pés no chão
O voo não seria tão alto
O tombo não seria tão feio
Foi só um susto
Levantei no pulo
Sem me segurar

Meu salto de cabeça foi para baixo
Não interrompo o que eu sinto para poder pensar
Um diálogo que leva para a cama não precisa fazer sentido

Saber que não há um fim
Me faria eu matar-me a mim mesmo
Mas como não tenho certeza
Não perco nada
Que não encontro de novo

Vivo essa vida assim mesmo
No caso de não se repetir
Ainda que pareça complicado
Ao primeiro olhar
De relance se vê o realce
Dessa beleza que se oculta
Em tudo que me faz sorrir

sábado, 8 de março de 2014

A ciência e a ideologia
Substituiram a mitologia
Poesia resistência
Direito de nomear

Resistência

Para além do pensamento abissal
O fim das descobertas imperiais

Todos são artistas
O desejo de destruir
Gera igual esforço de preservar

Abalar o conceito de des...com...temporão...idade
Nos livrar do perigo de uma história única
Descolonizar o saber
O subjetivo e a imaginação
Desfazer o sentido do presente
Em nome da libertação futura

A poesia resiste
Dialetal

Refazendo zonas sagradas
Que o sistema profana
O mito, o rito, o sonho, a infância
Questionando-se o que se é
Dizendo o que não é
O que não quer

sexta-feira, 7 de março de 2014

Tem celebração melhor no mundo
Do que Santo Antônio
São Pedro e São João
É junina é julhina é agostina
É Joaninha é Maria é Ritinha

Bolo de fubá quentão e pé-de-moleque
Milho verde cozido com manteiga
E não pode deixar de ter fogueira
Mesmo em tempos de preservação
Da liberação de carbono
Através da combustão
É Ritinha é Maria é Martinha

Para queimar os ramos desprezados
Restos que sobraram da colheita
Para se aquecer e louvar em festa
Fartura e abundância que se renovam
Apontando fogo em direção ao céu
Para assar batata-doce
Os santos mesmo pouco importam
É Maria é Martinha é Joaninha

Coisa que eu gosto é balão
Acho lindo o balão subindo
Mas hoje em dia é melhor não
Vai subir no pau-de-sebo
Vai pescar
Vai pular fogueira
Vai brincar com fogo
Cuidado
Para não amanhecer mijado

Quero os quitutes
Doce de leite
Doce de amendoim
Doce de abóbora
Cachaça e paçoca
Sopas caldinhos e assados
De boi de porco e de carneiro
É Joaninha é Ritinha é Maria
É conhaque é quentão é cachaça
Cachacinha quente com mel
E cama

quinta-feira, 6 de março de 2014

Uma gota de orvalho
Esculpida com ternura
Destendeu-se com bravura
Bem da ponta do caralho
(Bem do alto do carvalho)

quarta-feira, 5 de março de 2014

Leiteiro desastrado
Acometa o planeta
Descenda dos astros
Constele essas cadentes
Crepite o cosmos
Banhe galáxias
Enquanto eu meteoro
Decolo foguete

terça-feira, 4 de março de 2014

Desprezado fracasso
Falha
Inútil dúvida
Surpresa
O insoluto inesperado
Um clique
Um lapso

segunda-feira, 3 de março de 2014

Tudo é provisório
Tudo é premonição
Tudo é propósito
Tudo é imprevisível

domingo, 2 de março de 2014

Eu me seduzi no seu olhar
Deixei-me entregar
Te respirei e me senti
Mergulhar no teu sorriso

Meu coração, músculo cardíaco,
Diz pára mas eu fingo que não escuto

Foi assim
Encontrei você lá e não era nada
Meu interesse foi crescendo aos poucos pelos assuntos
Conforme fui me aproximando para escutar sua voz
E então quando vi de perto os seus olhos
Como é agradável olhar nos teus olhos
Nada mais
Nossa convivência, nossos assuntos
Uma admiração cultivada na convivência
Você era a linda garota com namorado
Eu nunca mantive esperança
Nem esbocei nenhuma tentativa
Pois na minha cabeça não tinha
Nada a ver

Mas aquele olho-no-olho
Aquelas conversas ao pé do ouvido
E se você não queria nada sério
Não devia seduzir quem gosta de você
De fato admito que gosto
Do jeito que nossos corpos se encontram
Olhar nos teus olhos e ver um sorriso

Me encantei
Mas foi depois
A maneira como tudo aconteceu
Quando você me beijou
E depois a sintonia
E no final de semana
E depois
Não se podia voltar ao que era antes
Aí então eu percebi o erro
Que eu tinha cometido
Fiquei sem nada
O que não era nada
Foi-se solidificando

sábado, 1 de março de 2014

Nada qual no seu lugar
Admirando casas do alto
O mundo parece tão calmo
Não se ouve o tráfego
Se vê tudo tão longe
E não se vê ninguém